Quarentena Faz Coisa - Sexta Semana – Não Vamos Deixar a Peteca Cair!

em domingo, 20 de dezembro de 2020

Por Talita Vasconcelos

Quarentena, Dia 36

Sabe aquela noite em que você não encontra nada apetecível para fazer? (A coisa está tão fora do normal na vida da gente, que eu achei um uso para a palavra apetecível... Nem sei quando foi a última vez que usei essa). Hoje é essa noite. Nem a TV serviu para distrair. Acabamos a noite, quatro mulheres na mesa da cozinha (Cristiana, Bibi, Paloma e eu), jogando Stop.

Stop!

Eu não jogava esse trem desde a oitava série!

Mas até que foi divertido. Teve até uma cena curiosa com a letra M.

Michelle, Marrom, Margarida, Martelo, Melancia... Chegamos ao “minha sogra é”, e todo mundo sabe o que vem por aí, né?

– Mal educada – respondi, pensando na gracinha da mãe do Marcelo, meu último namorado firme.

– Muquirana – respondeu Bibi.

– Miserável – essa foi a Paloma, e eu nem sei se ela tem alguma sogra para se inspirar.

– Maravilhosa.

Nessa hora, Cristiana nos deixou mudas. Trocamos olhares assombrados por um instante, e em seguida aplaudimos.

– Todo mundo esculhambando a sogra, a pessoa me saca um maravilhosa – elogiou Bibi. – Essa pessoa tem Jesus no coração.

– Ou não está tomando direito o Gardenal.

E com essa minha observação, o momento foi-se.

Não que a minha amiga não tivesse razão. A mãe do Pedrão realmente é a exceção no quesito sogra.

Quarentena, Dia 37

Juro que eu tentei, mas aturar um elemento mala, cobrando carência pelo Whats App todo santo dia, e tentando me convencer de que a pandemia é exagero da mídia, depois que três pessoas já morreram de Covid no meu prédio, e que quer por que quer ir para a farra num momento desses é demais pra minha cabeça. Acabei de colocar nosso namoro em quarentena. Pelo bem da minha sanidade mental.

Quarentena, Dia 38

Lá se foi nosso último roteiro pronto para o Café Com Banana. Daqui para frente, é cada um por si.

Para manter o padrão do canal, ficou combinado que cada um faria um vídeo com no máximo quarenta segundos, de tema livre, e não necessariamente precisaria ter conexão uns com os outros. Tipo um vaudeville, aquele gênero de espetáculo de rua americano – também conhecido como teatro de variedades –, onde artistas de diversos gêneros faziam apresentações individuais, sem relação entre si, podendo misturar no mesmo espetáculo teatro, palhaços, acrobatas, malabaristas, mágicos, comediantes, dançarinos, cantores, etc. Era mais ou menos como um circo, só que a apresentação poderia ser realizada em qualquer lugar. Até numa praça.

Ou seja, a partir daqui, cada um usará sua imaginação, para produzir algo divertido e extremamente curto.

O jeito é rezar, como a Vick – no que será parte do esquete dela para o próximo vídeo:

“Salve São Youtube dos Artistas Desesperados! Multiplicai o sinal da banda larga, e a live nossa de cada dia não nos faltará. Amém”.

Quarentena, Dia 39

Meu pai acaba de descobrir o Skype. Socorro!

Quarentena, Dia 40

Tive uma grande ideia para o meu primeiro vídeo individual, e eis aqui o roteiro:

INTERIOR DO APARTAMENTO, DIA.

Euzinha aqui, usando uma camisola que foi da avó da Cristiana, com um roupão de banho por cima, um penteado “chiquérrimo”, vulgarmente conhecido como ninho de passarinho – sabe quando você tenta prender o cabelo, erra o nó do elástico, prende uma parte e deixa a outra solta, aí passa um tornado e te descabela inteira? Tipo a Anna de Frozen, acordando descabelada no dia da coroação.

 

Uma imagem descreve mais do que mil palavras.

Então, com aquele figurino e esse penteado, sem maquiagem, esta pessoa aqui pega uma vassoura, aumenta o som do rádio – no último volume, que assim eu aproveito para me vingar do vizinho de cima, o Seu Wilson, que adora botar uma sofrência para berrar às seis da tarde –, e sai varrendo e dançando pelo apartamento. Nesse varre e nesse dança com a vassoura, vai poeira para um lado, tupperware pro outro, o mancebo da Cristiana leva uma rasteira, a cadeira da cozinha vai parar no corredor... Até o Piripaque foi varrido para dentro do cesto de roupa suja virado na lavanderia. Tudo isso ao som de um “clássico” da música brasileira:

♪♪ Diz aonde você vai que eu vou varrendo... ♪♪

Tudo isso sem me dar conta da bagunça que vou deixando pelo caminho. Pelo menos até varrer um tênis, acertá-lo no rádio, e desligá-lo na hora.

E aí? Será que vai ficar divertido?

A cena acima foi inspirada numa cena hilária que eu presenciei hoje de manhã, com a minha vizinha da frente, Dona Horrores – também conhecida como a porca do 71 –, que deu a louca de recolher a bagunça do apartamento com a vassoura debaixo do braço, tacando a dita cuja em tudo o que via pela frente. Quer dizer, em tudo o que não via no caminho dela.

Esse tipo de coisa acontece com certa frequência no apartamento aí da frente. Principalmente quando ela não toma o remédio direito.

Quarentena, Dia 41

Já passou um dia do prazo de quarentena. Daqui para frente temos que mudar o nome. Vou chamar de Vida em off.

Quarentena, Dia 42

Já que o meu trabalho está parado, acabei de aceitar um trampo temporário: organizar a contabilidade do meu pai. Com a pandemia, a firma dele está indo de vento em popa, mais do que de costume. Ele é dono de uma agência funerária, então, essa prosperidade, na verdade, é trágica. Mas vai tirar meu pé da lama, e evitar que eu fique em isolamento social na rua da amargura.


[Continua...]


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