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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Quem Deu o Habeas Corpus Para a Bruxa? – O Quarto Escuro



Por Talita Vasconcelos
Fui direto para a cozinha do casarão misturar as coberturas de chocolate e morango. Você pode não acreditar, mas em muitas séries de vampiro é assim que se faz sangue falso. Claro que a maioria simplesmente mistura um corante vermelho na cobertura de chocolate, mas quando não se tem tempo para ficar procurando corante comestível pela cidade, é só misturar calda de chocolate com calda de morango, e voilà! Temos sangue falso. O que não podemos, nesse caso, é ter um vampiro diabético em cena...

Bolhas de sangue falso preparadas, cinzeiros de metal prateado preenchidos e colocados em seus devidos lugares no cenário para serem utilizados na hora certa – vamos apenas torcer para que nenhuma formiga apareça por aqui hoje –; agora era só esperar pelo momento de abrir as cortinas.
Pelo que pude ouvir quando fui colocar os cinzeiros no palco, o público já começava a chegar. Conferi o relógio: faltavam quinze minutos para o início do espetáculo.
Achei melhor dar uma olhada no espelho, para ver se continuava tudo em ordem com a minha caracterização. Mas no caminho me deparei com uma discussão entre o Otávio Serqueira, dono do casarão/teatro e um sujeito muito nervoso.


– Manda aquela vaca sair da toca e devolver a minha máquina!
Hum... Quem será que arrumou confusão com esse cara? Comecei a me esgueirar pelo corredor para ouvir melhor essa encrenca, tendo o cuidado de ficar fora do campo de visão dos dois. O cara que discutia com o Otávio era grandalhão, com cara de poucos amigos, e eu tinha a impressão de que o conhecia de algum lugar...
– Já falei que ela não está aqui, ela tirou licença! – gritou Otávio, tentando deter o sujeito.
– O escambau! Eu sei que ela tá aqui.
E de repente o sujeito estava marchando rapidamente em direção ao corredor – exatamente para onde eu estava escondida.
Sei que é muito ridículo querer correr e me esconder, afinal, eu não tinha nada a ver com esse rolo, não faço ideia de quem ele estava procurando ou porque ele estava tão irritado, e tenho certeza de que eu não era a vaca que pegou o que quer que seja daquele cara, mas acho que fiquei um pouco assustada com o tamanho dele. Sem brincadeira, o sujeito era um armário – algo em torno de dois metros de altura por três de largura –, sem falar que estava furioso. Não parecia ser uma boa combinação.
O problema era que não havia nenhuma porta ali perto por onde eu pudesse sumir de vista, exceto o escritório da diretoria, e, naturalmente, era para lá que o sujeito se dirigia. Mas ser pega descansando lá dentro possivelmente seria menos constrangedor do que ser flagrada espionando no corredor. Sendo assim, entreguei a alma a Deus e entrei.
Não havia poltrona ou sofá lá dentro. Havia uma cadeira na frente e outra atrás da escrivaninha e uma no canto da sala. Fui até a estante, e apanhei o primeiro livro que consegui alcançar. Eu só estava dando uma folheada num livro para passar o tempo, aliviar a tensão da estreia... Nada de mais...
Ouvia os passos pesados do gigante se aproximando, ao mesmo tempo em que o meu coração ia acelerando. Subitamente senti uma mão cobrindo minha boca, enquanto um braço me apanhava pela cintura e me tragava para a escuridão.
Em quase seis anos circulando pelo casarão, eu já tinha ouvido boatos a respeito de passagens secretas, mas sempre pensei que não passassem disso: boatos. Como a lenda do fantasma do Don Juan Tenório que assombrava os corredores, e a maldição do Ricardão.
Mas ali estava eu, num corredor escuro, acessado através de uma passagem na estante do escritório – mais clichê, impossível –, silenciada pelas mãos do Fantasma da Ópera.
Ele sinalizou para que eu continuasse em silêncio, e me conduziu pelo corredor até uma escadaria de pedra antiga, que levava ao andar de baixo.
– Como sabia que eu estava lá? – sussurrei, quando terminávamos de descer as escadas, nosso caminho iluminado pela lanterna do celular dele.
– Você não era a única escondida escutando a discussão – respondeu Vicente, o fantasma.
– Quem era aquele sujeito?
– Acho que é o ex-marido da Rita. Não sei o que ela aprontou para deixar o homem tão puto.
– O que ela aprontou para deixar qualquer um puto? Nasceu!
Havia um colchonete, um travesseiro e um cobertor antialérgico um pouco mais à frente no corredor, pelo pouco que consegui enxergar naquela quase escuridão, uma mala meio aberta, com algumas roupas penduradas para fora, e uma mochila encostada na parede.
– Então esse é o seu esconderijo? – perguntei.
– Bem, eu prefiro o sofá da sala da contrarregra, ou o camarote três, mas quando alguém resolve aparecer no meio da noite, o jeito é improvisar para não ser apanhado.
Acontece que o Vicente, além de ator, é um universitário sem teto, que literalmente mora no casarão/teatro, mas ninguém da diretoria sabe disso.


Por isso não fiquei tão surpresa por ele conhecer as passagens secretas daquele lugar. Se alguém sabe se esgueirar pelo casarão como uma sombra, sem ser visto por ninguém, esse cara é o Vicente.
Ele iluminou a parede do corredor, perto de sua cama improvisada, e tateou até uma rachadura na parede que abria outra passagem, de onde emergimos na coxia.
Continua...





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