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sábado, 28 de outubro de 2017

Os Sombrios Sons de Notre Dame




Para quê falar de um clássico que todo mundo conhece? Para quê ler um clássico incansavelmente refilmado? Bastaria assistir a um dos filmes, a uma das inúmeras adaptações, e voilà! Você já conhece a história, não é? Geralmente, não é bem assim.
A maior parte das histórias recebe tantas modificações ao serem adaptadas para o cinema ou para a televisão, que quando nos deparamos com a obra original descobrimos que não a conhecemos tão bem quanto pensávamos. Sobretudo porque tanto o cinema quanto a TV têm a necessidade constante de agradar o público, o que implica muitas vezes em mudar o destino, e principalmente o final dos personagens com quem o público criará empatia.
Como é o caso desta obra maravilhosa que todos estamos carecas de ver representada por aí, mas de uma maneira completamente diferente da história original.






O Corcunda de Notre Dame
Título Original: Notre-Dame de Paris
Autor: Victor Hugo
Editora: Martin Claret
Páginas: 489
Gênero: Romance Gótico
Sinopse:
Victor Hugo foi o maior poeta romântico da França e um dos seus maiores prosadores. Produziu várias obras-primas, entre elas o romance medieval O Corcunda de Notre Dame (1831). A história é centrada na tragédia do corcunda Quasímodo e da cigana Esmeralda. É no interior da grande catedral gótica e nos labirintos das construções de Paris que se desenrola a terrível história de paixões impossíveis de seus personagens. Victor Hugo reuniu magistralmente em seu famoso romance religiosos e vagabundos, ciganos e nobres, padres e leigos — heróis e vilões. Com poderosa imaginação criadora, Hugo desperta em seu leitor as mais variadas emoções: do profano ao sagrado, do grotesco ao sublime. Com uma trama arrebatadora, que tem a cidade de Paris como bem mais do que um mero pano de fundo.



A princípio, O Corcunda de Notre Dame parece uma coleção de histórias sobre os moradores mais estranhos de Paris no final do século 15. Temos os ciganos e os mendigos que povoam a Praça da Greve durante os festejos do Dia de Reis e a tradicional Festa dos Loucos, onde o ser humano mais estranho no recinto é eleito o Papa dos Loucos, uma espécie de bobo da corte, que é ovacionado e achincalhado por todos em um desfile pelas ruas da cidade. Temos também a figura da enclausurada, uma mulher infeliz que decidiu viver reclusa num cubículo sem porta, com uma pequena janela fechada com grades de ferro enferrujado, enterrada viva com as dores de seu passado, vivendo da caridade dos transeuntes que às vezes lhe dão algo para comer. E, claro, temos Quasímodo, o sineiro corcunda, caolho, deformado e surdo de Notre Dame.



Ao contrário do que o título em português sugere, o corcunda não é o protagonista desta história. Ele recebeu do autor basicamente a mesma atenção que a cigana Esmeralda, a enclausurada da Tour-Roland, e o poeta errante Pierre Gringoire, cuja vida foi salva por Esmeralda ao fim dos festejos, quando queriam enforcá-lo no Pátio dos Milagres.
A figura central do romance é a própria Catedral de Notre Dame, diante da qual e dentro da qual toda a trama se desenrola.



E embora a Disney tenha transformado a obra num conto leve e bonito, para ser apreciado por crianças, O Corcunda de Notre Dame pode perfeitamente ser considerado um romance de horror. Não há final feliz. Febo e Esmeralda juntos e apaixonados no final? Esqueça! Quasímodo tendo sua bondade reconhecida apesar de suas deformidades? Sem chance! Uma grande celebração para comemorar o triunfo da justiça e o castigo dos vilões? Só a Disney conseguiu esta proeza.
Se você viu o desenho da Disney e acredita por isso conhecer a história desse clássico da literatura francesa, lamento informar que está enganado, pois o livro e o filme contam histórias completamente diferentes.
Sem dar muitos spoilers: Esmeralda está realmente encantada pelo Capitão Febo, porém ele só a vê como um objeto de diversão. Mais tarde, quando ela é acusada e condenada à forca por um crime que, na realidade, nem aconteceu, Febo não faz nada para salvá-la. Pelo contrário, ele faz parte da turba que, afinal, acaba por conduzir a cigana ao cadafalso. Quasímodo, por ser surdo, não compreende quando os ciganos e os mendigos cercam a catedral para libertar Esmeralda, asilada por ele para evitar seu enforcamento; e combate a multidão, matando muitos, por acreditar que eles querem retirá-la do abrigo para cumprir sua sentença.
Victor Hugo teceu em sua obra uma crítica social. Apesar de ter ambientado a trama no período medieval, ele descreveu traços da sociedade que se mantinham ainda no século XIX: a figura do bode expiatório, condenado à morte para servir de exemplo a outros, sem que se comprovasse realmente sua culpa no crime – e neste caso, sem que de fato houvesse um crime –; as figuras marginalizadas da sociedade, frequentemente hostilizadas, e acusadas por tudo de ruim que acontecesse na cidade; a condescendência e até mesmo a cegueira diante da vilania dos poderosos e dos líderes, por se acreditar que estas figuras estivessem acima de qualquer suspeita, quando, na realidade, eram eles os criminosos, os que realmente cometiam as barbaridades pelas quais os pobres e os mendigos eram condenados.
A sociedade alimentou durante muito tempo – até hoje, em muitos casos – certa intolerância pelo diferente, pelo que eles não compreendiam, por quem discordasse de seus hábitos e de suas crenças. Apesar do testemunho da vítima, Esmeralda não encontrou clemência, porque ela era uma cigana, uma classe desprezada pela sociedade; Quasímodo não era mau, mas por causa de suas deformidades, foi repudiado por todos, e mais tarde vilanizado por não ter como compreender as intenções daqueles que marchavam contra a catedral. E não vamos nos esquecer que muitas de suas ações podem ter sido induzidas pelo homem cruel que se dizia seu protetor.



Victor Hugo não se dignou a dar um final feliz aos seus personagens, ou sua crítica teria morrido ao final da obra. E apesar do desfecho lamentável, é possível reconhecer uma beleza grotesca no texto de O Corcunda de Notre Dame: a beleza nas descrições dos cenários, da arquitetura de uma Paris medieval, e de um monumento atemporal, que permanece como uma das mais belas construções de toda a Europa. E o lamento de uma realidade profunda e visceral, descrita com riqueza de detalhes e precisão, tão triste quanto o destino dos personagens deste clássico.




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