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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

[As Noivas de Robert Griplen] Capítulo 5 - A Mansão Submersa

Assim que entrou em casa, Susan ouviu Anne gemendo no quarto. A Sra. Garber estava aflita ao lado dela. Sentiu-se sonolenta após o almoço, e desde que adormecera, não parava de se agitar, gemer e choramingar. Toda a sua expressão estava torcida em aflição, mas apesar de todos os esforços, a Sra. Garber não fora capaz de acordá-la.
– Não, por favor... – choramingava Anne, quando Susan entrou no quarto. – Não vá...
– Querida, acorde! – suplicava a Sra. Garber, apertando sua mão.
A testa de Anne estava úmida, mas não tinha febre. A Sra. Garber a enxugava a todo instante com um lenço, e ela virava a cabeça no travesseiro cada vez que era tocada.
– Não me deixe... – insistia Anne.
– Eu estou aqui, querida – dizia a governanta, acariciando o rosto dela. – Por favor, Anne, abra os olhos!
– Está delirando de novo – observou Susan.
– Às vezes eu penso se ela está sonhando com os seus pais – sibilou a Sra. Garber.
Susan deu um suspiro pesaroso.
– É possível – assentiu.
Anne começou a tossir. A Sra. Garber ajeitou as cobertas sobre os ombros da garota, e tornou a afastar os cabelos de seu rosto. Susan descobriu seus pés por um momento, e verificou debaixo das cobertas que Anne vestira novamente a camisola cor de pêssego com que mergulhara do penhasco na noite anterior, e que Susan havia jogado com a sua no encosto de uma cadeira ao retornarem da praia. O tecido havia secado, mas ainda estava frio. Um arrepio percorreu a espinha de Susan. Aquilo poderia mesmo ter sido real?

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Eu Vivo Sempre No Mundo da Luna ♪♪



Todo mundo está careca de saber que sou fã indiscutível da Carina Rissi, né? E agora descobri por que: simplesmente porque essa mulher é capaz de me fazer devorar incontrolavelmente um livro com centenas de páginas, mesmo quando tenho vontade de dar uns tapas na protagonista.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Quem Não Se Enrola, Não Muda de Escola



Saudade das séries teen dos anos 1990. Não se passou tanto tempo assim, e no entanto as diferenças são gritantes. Havia conteúdo nas séries da Disney e da Nickelodeon duas décadas atrás, os episódios contavam uma história completa, abordavam um assunto coerente com o cotidiano de jovens e adolescentes da idade dos personagens, retratavam problemas reais, e todas as idiotices que esses jovens cometiam para resolver seus dramas, que pareciam boa ideia na hora, mas que depois se revelavam catalisadores de grandes confusões. A comédia era só um detalhe, um bônus delicioso para quem assistia. Havia maturidade nos roteiros, mostravam que adolescentes são seres pensantes, racionais, inteligentes. Que cometem erros? Sim, o aprendizado faz parte da vida. Mas cometiam erros reais, que você ou eu também poderíamos cometer, em vez das situações bizarras mostradas nas séries atuais, com roteiros surreais, e situações que dificilmente aconteceriam na vida real, nem em um milhão de anos.
Nada contra quem gosta e se diverte com séries como iCarly, Sam & Cat, Liv & Maddie e outras do gênero. Claro que, no meio de tanta bizarrice, é possível rir de alguma coisa, mas às vezes eu tenho a impressão de que esses roteiros são muito forçados, soam mais como besteirol do que comédia infantil. Não retrata qualquer realidade, não existe moral da história, por mais que tentem imprimir essa ideia. Não que uma série infantojuvenil precise ter uma moral, mas se no passado era possível transmitir um aprendizado ao mesmo tempo que divertia, por que não agora?
Sei lá, pode ser que eu esteja ficando rabugenta, ou nostálgica, ou as duas coisas, mas o fato é que não estou gostando dos rumos que canais como a Disney e a Nickelodeon, que costumavam ser referência de qualidade em entretenimento infantojuvenil – e que, verdade seja dita, eram tão apreciadas por adultos quanto por crianças, justamente por causa da alta qualidade de suas produções –, e que agora parecem decididas a se manter no ar a base de novelas teen latino-americanas e séries de comédia besteirol infantil. Cadê os desenhos? Cadê os bons roteiros? Lembrar que esses canais já foram responsáveis pela produção de Hey Arnold, As Told By Ginger – um bom exemplo de rara maturidade para um desenho –, DuckTales – que está de volta, só que com um design bem diferente do que estávamos acostumados –, e tantas séries que seria até difícil escolher só algumas para mencionar, e perceber a overdose de bobagens exibidas neles hoje em dia, chega a dar desgosto.
Enfim, depois deste imenso desabafo, chegou a hora de apresentar o momento nostalgia de hoje, em que desencavei um episódio de outra série que está fora do ar há um bom tempo.
A série foi protagonizada pela namorada de Sheldon Cooper, Mayim Bialik. Isso foi muito antes de ela conhecer a turma de nerds de The Big Bang Theory, antes de a atriz fazer uma pausa na carreira para frequentar a universidade, e conseguir seu Ph.D – sim, a moça é a única atriz de The Big Bang Theory que realmente possui um Ph.D na vida real – em neurociência.
Blossom foi produzida pela NBC, e teve cinco temporadas, exibidas também pelo SBT lá no finalzinho dos anos 1990, e contava a história de uma adolescente, filha de pais divorciados, que morava com o pai, que era músico e frequentemente trabalhava à noite, e com seus dois irmãos mais velhos, e todos os dramas envolviam principalmente o fato de viver num ambiente exclusivamente masculino. Blossom não era muito diferente de outras meninas de sua idade, mas por ser a única presença feminina na casa, os problemas típicos de meninas acabavam parecendo muito maiores do que eram de fato. Seu pai era um pouco inseguro sobre a maneira correta de criar uma moça, e sentia que havia cometido erros na educação de seus irmãos – um deles havia tido um envolvimento com drogas, e o outro vivia no mundo da lua, e parecia estar dez anos atrasado em idade mental. Deixando de lado o segundo, não dá para imaginar a Disney ou a Nickelodeon abordando temas como drogas ou sexo nas séries atuais. Na teoria, a mentalidade do mundo evoluiu, mas na prática, a censura hoje é muito maior do que há vinte anos, quando uma série infantojuvenil podia abordar tranquilamente temas tão complexos, e botar o dedo na ferida de diversas famílias sem medo de uma repercussão negativa ou passeatas em protesto, clamando para tirar a série ou o canal do ar. Havia a preocupação de informar e mostrar a possibilidade de recuperação. Não consigo imaginar Sam & Cat abordando temas como esses. O mais próximo que já chegaram das drogas foi mostrar o vício da Cat por Bibbles – um tipo de pipoca caramelada inglesa! Haja insulina, mas não chega nem perto de ter tantas toxinas.
Além desses temas polêmicos, e do roteiro repleto de personagens realmente cômicos – sem a forçação de barra das séries teen atuais –, Blossom retratava diversos problemas comuns dessa fase da vida com muito bom humor e uma pitada de exagero – vão notar pelo episódio escolhido para a resenha de hoje que essa garota era especialista em fazer tempestade em copo d’água, o que na verdade é a definição da palavra “adolescente”: aquela fase difícil, em que pensamos ter todas as respostas do mundo, e queremos todos os nossos problemas resolvidos pra ontem! E frequentemente fazemos um monte de bobagens, pensando estar no caminho certo.
Blossom, na verdade, nunca esteve entre as minhas séries preferidas dos anos 1990, mas eu sempre ri muito com esse episódio, em que a garota transforma uma simples mudança de escola numa tremenda encrenca.
E, convenhamos que a trama é bem apropriada para essa época do ano.
Então, sigam-me os bons!


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

[As Noivas de Robert Griplen] Capítulo 4 - Coração Apertado

Durante todo o dia, Susan não disse uma palavra à Anne. Em parte, porque ainda se sentia estonteada pelos acontecimentos daquela madrugada: o mergulho do penhasco, a descoberta das sereias e da mansão submersa, e o quanto de tudo isso pode ou não ter sido real; e em parte porque temia acabar delatando o plano sórdido de seu tutor para trancá-la no sanatório.
Sua consciência clamava para que contasse tudo à Anne, e lhe desse a oportunidade de lutar, de bater o pé, ou mesmo de fugir antes que o Dr. Prynne viesse com os enfermeiros para buscá-la. Mas a preocupação que ela viu nos olhos do Reverendo Bichop naquela manhã calou fundo em sua alma.
Ele estava devastado. Aquela não era uma decisão impensada, tomada por um tutor relapso, que só queria se livrar de um aborrecimento. Não. Bichop estava sofrendo tanto quanto ela própria com a situação de Anne. Quando a olhou nos olhos naquela manhã, e disse que aquela era a única maneira de salvá-la, ele estava sendo sincero. E embora não tivesse esclarecido exatamente de quê precisava salvá-la, Susan vira nos olhos dele que não estava exagerando.
Desde que os pais morreram, as irmãs Dawson só tinham o Reverendo Bichop e a Sra. Garber para cuidar delas, e confiavam plenamente nos dois. Como a governanta que as tinha criado desde pequenas, Bichop amava as duas como se fossem suas filhas, e Susan não tinha porque duvidar de seus cuidados. E ver o tormento legítimo nos olhos dele ao anunciar que talvez precisasse tomar medidas severas para tratar da saúde de Anne, fez com que o coração de Susan se estilhaçasse no peito.
Ele tinha lhe negado algumas respostas. Obviamente havia algo grave por trás da súbita perturbação de Anne; algo que nem ele nem a Sra. Garber pretendiam lhe contar. E foi somente a certeza de que nenhum dos dois tomaria qualquer atitude extrema, a menos que fosse estritamente necessário, o que a convenceu a se calar.
Ainda assim, Susan tinha a horrível sensação de estar traindo a irmã com seu silêncio.
Logo depois do almoço, quando o silêncio naquela casa se tornou insuportável, Susan decidiu sair para tentar acalmar os nervos. Tinha muito em que pensar, e não podia conversar com ninguém a respeito. Ao menos, com nenhuma alma viva.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

[As Noivas de Robert Griplen] Capítulo 3 - Sua Para Sempre

Salem, Massachusetts, 22 de março de 1646
Robert Griplen se apressou pela escada ao ouvir os passos do criado no vestíbulo. Se havia algo desagradável em sua propriedade era a impossibilidade de ouvir uma carruagem se aproximando do jardim, uma vez que as carruagens não tinham como rodar até o seu jardim.
A mansão de sua família havia sido construída numa espécie de ilha particular, a alguns quilômetros da baía de Salem. Isso lhes concedia um jardim imenso, e os poupava de vizinhos inconvenientes.
Sua família chegou à Nova Inglaterra junto com os primeiros colonos, em 1620. A princípio, eles se alojaram numa casa pequena e precária, de tábuas estreitas, que não cumpriam seu papel em protegê-los do frio. Robert ainda se lembrava com horror do primeiro inverno que passaram na região de Plymouth, no extremo oriente do estado. O abrigo precário e o rigoroso inverno foram os principais incentivadores para que George Griplen, pai de Robert, apressasse a construção de uma boa casa para a família. Com a mão de obra dos escravos que trouxera desde a Inglaterra, a mansão ficou pronta antes do inverno seguinte.
A ilha, em si, não era muito grande. Uma ilhota, muito menor, talvez, que a menor ilha do Caribe, mas era inteiramente de sua família. A mansão possuía seis quartos no primeiro andar, cada um deles com tamanho suficiente para acomodar o Rei James com todos os seus privilégios. Três deles, na verdade, não eram ocupados por ninguém, pois seus pais lamentavelmente só tiveram dois filhos; e Emily, a caçula, foi praticamente um milagre: quase morreu e matou sua mãe ao nascer.
A residência dos criados foi construída separada da mansão por vários metros de terreno; e mais ao norte, foi erguido um galpão reservado a práticas religiosas, como o pai de Robert costumava dizer, o que era deveras um comentário jocoso, considerando que os Griplen não eram religiosos. Mas embora não convivessem verdadeiramente com o resto das pessoas da cidade, nem tivessem amigos particularmente próximos, era bom manter uma construção qualquer com uma cruz no telhado em sua propriedade, ainda que fosse somente para afastar os curiosos.
O fato de serem reservados, na verdade, contribuía inversamente para inibir o interesse das pessoas. Sobretudo porque a sociedade da Nova Inglaterra era quase completamente constituída por famílias pouco abastadas que imigraram do velho continente, ao contrário dos Griplen, que desde muito antes da mudança ostentavam imensa fortuna. Era natural que tivessem interesse em integrá-los o mais breve possível à comunidade. Os Griplen, no entanto, não tinham qualquer intenção de estreitar relações com aqueles puritanos.
Mas aquela noite era uma exceção. Os Griplen esperavam convidados para o jantar, mas não era uma recepção social. Os Croft não eram a parte da comunidade que eles preferiam evitar; ao menos, não mais. Dali a dois dias Robert se casaria com a única filha deles, Lucy, de modo que este jantar era o último encontro protocolar entre as famílias dos noivos.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Sangue É Mais Poderoso do Que Tinta



Cornelia Funke, pelo amor de Deus, me dê o endereço do Língua Encantada mais próximo! Eu também adoraria entrar em Coração de Tinta!

Este é, sem exagero algum, o sonho de qualquer leitor: quem nunca desejou entrar dentro de seu livro favorito? Poder participar da história, conhecer os personagens, ver os lugares maravilhosos descritos pelo autor? Tentador, não é mesmo?
Bem, mas para Meggie Folchart, filha do encadernador Mo, e leitora voraz desde que se entende por gente, este sonho pode se tornar realidade: basta que ela leia em voz alta.
Meggie e seu pai possuem o dom de trazer à vida personagens e objetos dos livros com sua voz. O problema é que nem sempre se pode controlar o que sairá das páginas. Foi assim que Mo, acidentalmente, trouxera para o mundo real três personagens de um livro chamado Coração de Tinta: Dedo Empoeirado, o cuspidor de fogo; Capricórnio, líder dos incendiários da Floresta Sem Caminhos; e Basta, seu principal comparsa, sempre acompanhado de uma afiada navalha que ele não hesita em usar. E, em troca, enviara sua esposa, Resa, para o Mundo de Tinta.
Bem, no primeiro livro – de que já falamos aqui –, Mo conseguiu deter Capricórnio com a ajuda de uma nova página escrita por Fenoglio, o autor de Coração de Tinta, que também havia se tornado refém dos vilões que ele próprio criara. Mas a história ainda não havia terminado. Basta permaneceu à solta em nosso mundo; embora o filme tenha alterado o final para não ter que filmar o resto da trilogia, Dedo Empoeirado não conseguira retornar à sua história; e Meggie continuava ardendo de desejo de ver o mundo maravilhoso que sua mãe conhecera do outro lado das páginas de Coração de Tinta.
Em Sangue de Tinta, segundo volume da trilogia criada por Cornelia Funke, muitos desejos serão realizados, mas, como o próprio título sugere, o preço a ser pago será alto demais.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

[As Noivas de Robert Griplen] Capítulo 2 - Pesadelos e Traições

Pela primeira vez em muitos dias, Anne parecia serena ao repousar sobre a cama. Susan se deitou ao seu lado, após trocarem as camisolas molhadas, não querendo deixar a irmã sozinha, e quando despertou, todas as lembranças da noite anterior dançaram em sua mente, deixando-a ligeiramente tonta. Anne ainda dormia profundamente, e Susan achou melhor não perturbá-la.
A janela do quarto de Anne amanheceu aberta novamente, embora a própria Susan a tivesse trancado quando retornaram da praia.
Aquela foi uma noite estranha. Adormecera depressa ao lado da irmã, e não muito tempo depois, sentiu o sopro do vento em seu rosto, e um forte e inexplicável perfume de jasmim preencher o quarto. Queria saber de onde ele vinha, o que era, e principalmente, por onde ele entrara, porém, não teve forças para abrir os olhos. Era como se um torpor tivesse dominado sua mente, tornando-a incapaz de despertar, apesar de sua vontade.
Talvez tenha sido apenas um sonho, mas Susan teve a sensação nítida de que alguém levantara as cobertas e se deitara silenciosamente entre as duas irmãs no meio da noite. Tremia só de pensar na possibilidade. Tinha que ser um sonho, para o seu próprio bem e de sua reputação; pois de outro modo, ela teria que aceitar a hipótese perturbadora de ter dormido a noite toda aconchegada com a irmã no peito de um homem.

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