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sábado, 17 de fevereiro de 2018

Quem Não Se Enrola, Não Muda de Escola



Saudade das séries teen dos anos 1990. Não se passou tanto tempo assim, e no entanto as diferenças são gritantes. Havia conteúdo nas séries da Disney e da Nickelodeon duas décadas atrás, os episódios contavam uma história completa, abordavam um assunto coerente com o cotidiano de jovens e adolescentes da idade dos personagens, retratavam problemas reais, e todas as idiotices que esses jovens cometiam para resolver seus dramas, que pareciam boa ideia na hora, mas que depois se revelavam catalisadores de grandes confusões. A comédia era só um detalhe, um bônus delicioso para quem assistia. Havia maturidade nos roteiros, mostravam que adolescentes são seres pensantes, racionais, inteligentes. Que cometem erros? Sim, o aprendizado faz parte da vida. Mas cometiam erros reais, que você ou eu também poderíamos cometer, em vez das situações bizarras mostradas nas séries atuais, com roteiros surreais, e situações que dificilmente aconteceriam na vida real, nem em um milhão de anos.
Nada contra quem gosta e se diverte com séries como iCarly, Sam & Cat, Liv & Maddie e outras do gênero. Claro que, no meio de tanta bizarrice, é possível rir de alguma coisa, mas às vezes eu tenho a impressão de que esses roteiros são muito forçados, soam mais como besteirol do que comédia infantil. Não retrata qualquer realidade, não existe moral da história, por mais que tentem imprimir essa ideia. Não que uma série infantojuvenil precise ter uma moral, mas se no passado era possível transmitir um aprendizado ao mesmo tempo que divertia, por que não agora?
Sei lá, pode ser que eu esteja ficando rabugenta, ou nostálgica, ou as duas coisas, mas o fato é que não estou gostando dos rumos que canais como a Disney e a Nickelodeon, que costumavam ser referência de qualidade em entretenimento infantojuvenil – e que, verdade seja dita, eram tão apreciadas por adultos quanto por crianças, justamente por causa da alta qualidade de suas produções –, e que agora parecem decididas a se manter no ar a base de novelas teen latino-americanas e séries de comédia besteirol infantil. Cadê os desenhos? Cadê os bons roteiros? Lembrar que esses canais já foram responsáveis pela produção de Hey Arnold, As Told By Ginger – um bom exemplo de rara maturidade para um desenho –, DuckTales – que está de volta, só que com um design bem diferente do que estávamos acostumados –, e tantas séries que seria até difícil escolher só algumas para mencionar, e perceber a overdose de bobagens exibidas neles hoje em dia, chega a dar desgosto.
Enfim, depois deste imenso desabafo, chegou a hora de apresentar o momento nostalgia de hoje, em que desencavei um episódio de outra série que está fora do ar há um bom tempo.
A série foi protagonizada pela namorada de Sheldon Cooper, Mayim Bialik. Isso foi muito antes de ela conhecer a turma de nerds de The Big Bang Theory, antes de a atriz fazer uma pausa na carreira para frequentar a universidade, e conseguir seu Ph.D – sim, a moça é a única atriz de The Big Bang Theory que realmente possui um Ph.D na vida real – em neurociência.
Blossom foi produzida pela NBC, e teve cinco temporadas, exibidas também pelo SBT lá no finalzinho dos anos 1990, e contava a história de uma adolescente, filha de pais divorciados, que morava com o pai, que era músico e frequentemente trabalhava à noite, e com seus dois irmãos mais velhos, e todos os dramas envolviam principalmente o fato de viver num ambiente exclusivamente masculino. Blossom não era muito diferente de outras meninas de sua idade, mas por ser a única presença feminina na casa, os problemas típicos de meninas acabavam parecendo muito maiores do que eram de fato. Seu pai era um pouco inseguro sobre a maneira correta de criar uma moça, e sentia que havia cometido erros na educação de seus irmãos – um deles havia tido um envolvimento com drogas, e o outro vivia no mundo da lua, e parecia estar dez anos atrasado em idade mental. Deixando de lado o segundo, não dá para imaginar a Disney ou a Nickelodeon abordando temas como drogas ou sexo nas séries atuais. Na teoria, a mentalidade do mundo evoluiu, mas na prática, a censura hoje é muito maior do que há vinte anos, quando uma série infantojuvenil podia abordar tranquilamente temas tão complexos, e botar o dedo na ferida de diversas famílias sem medo de uma repercussão negativa ou passeatas em protesto, clamando para tirar a série ou o canal do ar. Havia a preocupação de informar e mostrar a possibilidade de recuperação. Não consigo imaginar Sam & Cat abordando temas como esses. O mais próximo que já chegaram das drogas foi mostrar o vício da Cat por Bibbles – um tipo de pipoca caramelada inglesa! Haja insulina, mas não chega nem perto de ter tantas toxinas.
Além desses temas polêmicos, e do roteiro repleto de personagens realmente cômicos – sem a forçação de barra das séries teen atuais –, Blossom retratava diversos problemas comuns dessa fase da vida com muito bom humor e uma pitada de exagero – vão notar pelo episódio escolhido para a resenha de hoje que essa garota era especialista em fazer tempestade em copo d’água, o que na verdade é a definição da palavra “adolescente”: aquela fase difícil, em que pensamos ter todas as respostas do mundo, e queremos todos os nossos problemas resolvidos pra ontem! E frequentemente fazemos um monte de bobagens, pensando estar no caminho certo.
Blossom, na verdade, nunca esteve entre as minhas séries preferidas dos anos 1990, mas eu sempre ri muito com esse episódio, em que a garota transforma uma simples mudança de escola numa tremenda encrenca.
E, convenhamos que a trama é bem apropriada para essa época do ano.
Então, sigam-me os bons!




Blossom e sua melhor amiga Six estão reunidas no quarto da protagonista, reclamando da quantidade absurda de dever de casa. Não que elas não possam pagar alguém para fazer... Ou mudar de escola... Isto é, se a última vez não tivesse sido um pesadelo...
A professora da escola particular que Blossom frequentava entrou na sala de aula, toda trabalhada no couro preto, com um chicote na mão, com cara de que daria uma aula que nada teria a ver com geografia, comentando que a sala está fedendo a medo, e já adivinhando que uma das alunas não fez o seu dever de casa.




Muito simples, realmente...
Mas uma das espertinhas estava muito ocupada para fazer a tarefa, então, como castigo, todas terão que escrever romances novos. Vou dar uma dica a vocês, moças: guardem seus escritos de hoje e entreguem só amanhã! Assim, ninguém terá que refazer, e ela nunca saberá de quem era o cheiro de freada de caminhão na sala.
Isto é, se a professora já não estivesse ciente de quem foi a responsável por todo esse sofrimento desnecessário. Vamos dar uma dica: foi Blossom Russo!




Eis a professora do ano: incentivando as alunas a se juntarem para descer o sarrafo na coitada da menina, só por não ter escrito seu romance idiota sobre uma coisa que não tem nada a ver com a outra. E para piorar, aquelas garotas precisam fazer uma limpeza de pele urgente, e uma hidratação nos cabelos, porque estão parecendo figurantes de uma versão escolar de The Walking Dead.




Claro que a garota estava tendo um pesadelo. E o medo foi tanto que ela nem se atreveu a voltar a dormir; decidiu levantar cedo, só para não correr o risco de acabar sendo eletrocutada na cadeira da diretora.
Seu irmão Tony também já estava de pé, atacando as calabresas de uma pizza amanhecida e o pote de manteiga de amendoim, e lendo um artigo inacreditável.




Acreditem se quiser, isso acontece o tempo todo no Kansas, com aquela média de dezessete tornados semanais. Reza a lenda que o pessoal de lá precisa esperar o tornado passar para atravessar a rua. Imaginem a complicação que deve ser trabalhar como guarda de trânsito num lugar desses...
Mas já que ele está acordado, Blossom aproveita para desabafar seu drama escolar com o irmão mais velho.
Isso é porque ele é chegado no cigarro que o passarinho não fuma. Só que no caso da Blossom, não tinha nenhuma substância química envolvida; só raiva, mesmo.
Em defesa da moça, ela tentou falar com o pai a semana toda. O caso é que na segunda-feira ele conversou com o advogado da mãe deles sobre o divórcio, na terça ele viu as notas do Joe no curso de verão, e dançou na trilha sonora de A Hora do Pesadelo... Mas se ela não conseguir falar com ele logo, vai acabar ficando presa no colégio particular Crestridge com garotas ricas chamadas Tiffany, cuja meta principal na vida é fazer cirurgia plástica, e se tornar esposa troféu para um cara gordo – igualmente rico, provavelmente – chamado Sid.
Bem, o pai dela chega logo em seguida, dando pinta – literalmente! – de estar muito cansado, depois de passar a noite tocando piano num concerto emocionante.




E ainda vai piorar um pouquinho. Esperem só para ver o restante do relato da noitada do cara.




O nome disso é pedofilia, moço. Vai ter coragem de comer os dois filhos da maluca? Não sei se sugerir que os dois filhos da doida eram frutas pretendia ser uma piada envolvendo gays... Seja lá como for, nos anos 1990 aparentemente os chatonildamente corretos não davam muita importância para piadas que ficavam subentendidas. Isso foi antes do termo “politicamente correto” virar moda. Bons tempos...
A propósito, Nick, não foi a Blossom quem comeu suas calabresas. Sem querer dar dedos, nem apontar nomes, tem outro de seus filhos acordados a essa hora.
Aproveitando-se da nobreza e do cansaço do pai, Blossom decide ter sua tão aguardada conversa, enquanto ele come só o que restou da massa da pizza gelada.


 


Mais tarde, ela tenta enfiar alguma instrução na cabeça de seu irmão do meio, Joey, que está estudando para uma prova de recuperação para tentar sair da sexta série – detalhe, ele já tinha idade para ter se formado no ensino médio –, e assim tentar elevar a moral da escola pública com seu papito.




Isso porque no início dos anos 1990 ainda não tinha o High School Musical...
O problema é que, se por um lado o pessoal da escola pública não parece ser o tipo ideal para Joey, Blossom não tem lá muita escolha, uma vez que no colégio particular ela só teria contato com patricinhas, e nenhum espécime masculino num raio de quilômetros. Ou seja: zero possibilidade de cruzar com o Zac Efron desmunhecando no corredor. Daí se não tem tu, vai tu mesmo, né...
E Joey estuda justamente na escola onde Blossom está tentando convencer o pai a matriculá-la, e o fato de seus dois irmãos mais velhos serem produtos dessa maravilha de escola pública não ajuda muito: um deles é ex-viciado em drogas, e o outro é ex-doador de cérebros. Aliás, não parece ter restado muito do cérebro do Joey para contar história.
Mas nem com a ajuda de sua irmã esperta para estudar ele acredita que possa passar na prova sem colar. Pelo menos ele já tem um plano: ele gastou as últimas horas livres do dia copiando a matéria no braço.




Percebendo que esse pode ser o único jeito de fazê-lo estudar, Blossom o aconselha a continuar treinando escrever de trás para frente, até conseguir escrever tão miudinho que vai caber tudo em seu braço.
E como o pai não quer nem ouvir falar em mudá-la de escola, Blossom começa a pensar numa maneira de fazer com que a expulsem da escola particular. Por exemplo, ela pensa em fumar na sala da diretora, colocar os pés em sua mesa, difamar seu figurino e atear fogo na lixeira com a bituca de cigarro acesa. Deixa eu te dar uma dica, Blossom: leia Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola, do Danilo Gentili, onde você descobrirá ideias diabólicas muito mais eficientes e divertidas para ser expulsa com dignidade.
Claro que esse foi outro pesadelo que ela teve naquela semana conturbada. Então ela decide se matricular por conta própria no Colégio Tyler, e aproveitar seus últimos quinze dias de férias em Crestridge para provar ao pai que a escola pública não é tão ruim quanto ele pensa.




Só nessa série eu ouvi falar de escolas públicas cujas aulas começam antes de uma escola particular. Mas enfim...
Blossom está tão determinada a provar ao pai que a escola é boa, que se matricula em todos as aulas extracurriculares em que consegue pensar, mesmo que tenha que terminar o dever de casa de matemática enquanto pensa no que vai escrever para o jornal da escola.
Enquanto ela rala por seu lado, Joey continua tentando preparar sua cola para a prova.




O plano dela agora é simples: uma vez por mês, ela e o pai vão a um restaurante, então ela vai aproveitar a deixa para mostrar as cartas que recebeu dos professores durante o jantar.




O que não é muito difícil de acontecer.
Na teoria, o plano era simples; na prática, ela não contava que um de seus novos professores de música fosse aparecer no restaurante, cumprimentar seu pai, e contar que ela é sua melhor aluna no colégio Tyler. Daí ela é obrigada a confessar que se matriculou falsificando a assinatura do pai, o que a coloca num tremendo problema.
Não que o pai fosse denunciá-la, nem nada, mas ainda poderia deixá-la de castigo até o ano 2900.




O fato é inegável: o que ela fez foi incrível, embora a maneira como fez tenha sido desonesta. O problema é que ela não enxergava outra forma de mostrar a si mesma ou a escola ao pai, mesmo que seus esforços sejam dignos de elogios. Vendo pelo lado do pai, porém, o motivo de ele não querer que ela mudasse de escola era que, num colégio só para meninas, ele sentia que ela estava protegida do mundo, de rapazes, namoros e drogas, tudo aquilo que lhe dava pesadelos só de pensar.




Bem, ele pode gritar e se debater, mas o que está feito, está feito, e ele não vai querer estragar um histórico escolar perfeito como o que Blossom está construindo na nova escola, para forçá-la a voltar a ser colega de classe da Tiffany. Deixe a coitada ser feliz!
E foi assim que Blossom convenceu o pai a deixá-la estudar onde quisesse.




Filha de peixe, não é, dona Blossom?
Ah, e outra boa notícia, o Joey conseguiu acertar 66 das 100 questões da prova de História.




O interessante é que Joey nem se tocou que esse seu método de “colar” existe há milhares de anos. É uma técnica muito complexa, que os antigos gregos chamavam de... estudar.




Então crianças, escondam a matéria na cabeça, e nunca serão pegas “colando”. Patenteado e garantido por Joey Russo!



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