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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

[As Noivas de Robert Griplen] Capítulo 5 - A Mansão Submersa

Assim que entrou em casa, Susan ouviu Anne gemendo no quarto. A Sra. Garber estava aflita ao lado dela. Sentiu-se sonolenta após o almoço, e desde que adormecera, não parava de se agitar, gemer e choramingar. Toda a sua expressão estava torcida em aflição, mas apesar de todos os esforços, a Sra. Garber não fora capaz de acordá-la.
– Não, por favor... – choramingava Anne, quando Susan entrou no quarto. – Não vá...
– Querida, acorde! – suplicava a Sra. Garber, apertando sua mão.
A testa de Anne estava úmida, mas não tinha febre. A Sra. Garber a enxugava a todo instante com um lenço, e ela virava a cabeça no travesseiro cada vez que era tocada.
– Não me deixe... – insistia Anne.
– Eu estou aqui, querida – dizia a governanta, acariciando o rosto dela. – Por favor, Anne, abra os olhos!
– Está delirando de novo – observou Susan.
– Às vezes eu penso se ela está sonhando com os seus pais – sibilou a Sra. Garber.
Susan deu um suspiro pesaroso.
– É possível – assentiu.
Anne começou a tossir. A Sra. Garber ajeitou as cobertas sobre os ombros da garota, e tornou a afastar os cabelos de seu rosto. Susan descobriu seus pés por um momento, e verificou debaixo das cobertas que Anne vestira novamente a camisola cor de pêssego com que mergulhara do penhasco na noite anterior, e que Susan havia jogado com a sua no encosto de uma cadeira ao retornarem da praia. O tecido havia secado, mas ainda estava frio. Um arrepio percorreu a espinha de Susan. Aquilo poderia mesmo ter sido real?

– Sempre... – murmurou Anne.
E então fez um som profundo e esganiçado, jogando a cabeça para trás. Susan correu em seu socorro, e ergueu sua cabeça do travesseiro. Anne parecia estar sufocando.
A Sra. Garber afastou as cobertas e começou a abaná-la com uma das mãos, enquanto agitava seus ombros, até que ela finalmente acordou.
– Não respiro... – sibilou Anne, sem conseguir emitir nenhum som.
Susan ajudou a colocá-la sentada na cama, e segurou sua cabeça para trás, até que ela conseguiu recuperar o fôlego.
– Você teve um pesadelo? – indagou a Sra. Garber.
O olhar de Anne se encheu de pavor, e ela apenas aquiesceu, abrigando a cabeça no peito de Susan. Ela não falava de seus pesadelos à governanta. Isso ficava só entre as duas irmãs.
Susan assentiu para a Sra. Garber, para lhe assegurar que cuidaria de Anne a partir de agora, e então a governanta foi preparar um chá.
E tão logo ela saiu, Susan perguntou, enquanto afagava carinhosamente os cabelos de Anne:
– Sonhou com o mascarado outra vez?
Anne aquiesceu, sem levantar a cabeça.
– E com aquela casa – acrescentou Anne.
Susan engoliu em seco. Ela se referia à mansão que descobriram no fundo do mar. Como ela temia, não foi um sonho.
– Estávamos presos lá dentro – sussurrou Anne. – E depois de um tempo, eu não podia mais respirar...
Susan sibilou para que ela não dissesse mais nada, e somente descansasse. Ainda não estava confortável para falar sobre a aventura daquela noite. Principalmente, porque pensar nisso trazia à tona as lembranças dos sonhos que tivera naquela madrugada, e que ela vinha tentando evitar o dia todo. Quem quer que fosse o homem com quem ela sonhara, era melhor que ela o tirasse da cabeça imediatamente.
Quando a noite caiu, Susan estava exausta. Assistir à irmã oscilando entre a sanidade e os devaneios, exauria completamente suas forças: físicas e emocionais.
Dormiu na poltrona, junto à janela do quarto de Anne, não querendo novamente deixar a irmã sozinha. No entanto, à meia-noite, Susan foi despertada pelas badaladas do relógio da sala de estar. As cortinas esvoaçavam diante de seu rosto; a janela estava aberta outra vez; e Anne novamente não estava na cama.
Susan desceu as escadas correndo. A porta da frente estava entreaberta, e isto lhe fez sentir um calafrio. Queria que seu pressentimento estivesse errado, mas apesar da escuridão, ela quase podia ver os passos da irmã marcados na areia. Era um devaneio, é claro; não havia meios de os pés de Anne serem os únicos a deixar uma trilha na praia. Mas como um terrível déjà-vu, Susan encontrou a irmã exatamente onde pensara: na beira do penhasco.
– O que está fazendo aqui? – indagou, segurando o braço dela.
Anne fitava a imensidão negra do oceano, como se estivesse hipnotizada.
– Anne! – insistiu Susan, chamando-a de volta a si.
– Estava pensando... – disse Anne, sem desviar os olhos da água. – O que haverá naquela casa?
Susan ergueu os olhos para o horizonte. A lua cheia brilhava a uma boa distância da baía, e ela imaginou que, àquela hora da noite, podia muito bem estar pairando exatamente acima do telhado da mansão submersa. E lembrar disso, também lhe dava calafrios.
– É melhor esquecer isso – disse Susan à irmã, puxando seu braço para afastá-la do penhasco.
Porém, Anne estacou ali, e não permitiu que a levasse.
– Eu gostaria de descobrir – murmurou, sem tirar os olhos do mar.
– De jeito nenhum! – bradou Susan. – Nós não vamos voltar lá!
As palavras saíram com fúria de sua boca, mas a verdade é que, no fundo de sua alma, ela também desejava ter mais uma oportunidade de explorar o que havia dentro da casa; e principalmente, ter outra oportunidade de nadar sob a baía de Salem sem precisar retornar à superfície para respirar.
– Por que não? – desafiou Anne. – Fizemos isso ontem, e nada nos aconteceu...
– Por isso mesmo... Não vamos testar a sorte.
Porém, Anne tornou a fitar o mar, com o olhar decidido. E Susan a conhecia o suficiente para saber que não conseguiria dissuadi-la. E considerando a maneira como ela saía sorrateiramente da casa enquanto todos dormiam, provavelmente também não seria capaz de impedi-la.
Aquilo era loucura, sem dúvida, mas Susan precisava protegê-la. E naquele momento, a única maneira de fazer isso, era não deixando Anne sozinha.
– Este não é o lugar mais seguro para fazer isso – disse Susan, receosa, fitando as pedras lá embaixo.
– Foi daqui que pulamos ontem – lembrou Anne, controlando o próprio medo. – Deve existir alguma espécie de magia neste lugar.
As palavras fizeram Susan reagir. Sentia um nó em sua garganta – certamente o nó da corda que a enforcaria quando pulasse novamente nas águas enfeitiçadas de Salem. Mesmo já tendo passado mais de um século desde o episódio macabro que aterrorizou a cidade, Susan tinha certeza de que as pessoas não seriam misericordiosas se soubessem que elas estavam seduzidas por algum tipo de bruxaria.
– Mas nós ainda podemos nos machucar... – insistiu Susan, recuando um passo.
– Não seja tola! – Anne fez uma careta. – Não vamos bater nas pedras, nem nos afogar. Ontem nós fomos capazes de respirar embaixo d’água por quase meia hora...
– E quase morremos na volta! – salientou Susan. – Quais as chances de acontecer de novo?
Anne olhou para o penhasco, enchendo-se de coragem. Então estampou no rosto sua expressão mais confiante.
– Só há uma maneira de descobrir – disse, com a voz firme.
Ela agarrou a mão da irmã e as duas encararam a pequena piscina entre as pedras.
Tomar a decisão foi infinitamente mais fácil do que mergulhar. Felizmente, quando o mar as envolveu, no lugar exato onde haviam caído na noite anterior, as duas entraram naquele transe estranho que as tornava capazes de respirar embaixo d’água.
Susan olhou ao redor, esperando que as sereias aparecessem, mas elas não vieram. Então avistaram as paredes da mansão, ao longe, debilmente iluminadas pelo luar, e nadaram até ela.
Um extraordinário jardim de algas cercava a casa. Havia limo nas paredes em toda a fachada, e as jardineiras das janelas do primeiro andar, inacreditavelmente, exibiam jasmins vivos e exuberantes.
Havia um símbolo gravado na porta da frente, pouco acima da aldrava de prata: algo semelhante a um garfo ou forquilha – ou a letra Y com um traço a mais. Susan não havia reparado naquele símbolo na noite anterior, e também não pôde analisá-lo adequadamente agora, pois Anne a arrastou para dentro assim que conseguiu abrir a porta.
Entrar na mansão submersa era como retornar a um sonho espantoso. Intimamente, Susan ainda não estava segura de que aquele lugar era real. Talvez ela fosse acordar a qualquer momento em sua cama, e perceber que estivera sonhando desde a noite anterior: com a casa, com as sereias, a discussão com o Reverendo Bichop, e até mesmo o encontro com Roger Bellingham no cemitério. Talvez até mesmo a perturbação de sua irmã não passasse de um lamentável pesadelo.
Infelizmente, no minuto seguinte nada mudou. Ela continuava caminhando dentro da mansão submersa, observando aquele ambiente tão incomum quanto um aquário de luxo, percebendo palpável tudo o que ela não acreditava ser real, e respirando como se não houvesse água ao seu redor.
E conforme caminhava pela casa, sentia que não só era real, como tudo ali dentro parecia vivo.
Os móveis e os objetos pareciam congelados no tempo. Ilusoriamente, os olhos azuis nos retratos pareciam seguir cada movimento das duas irmãs. Na copa, a prataria e as taças de cristal estavam organizadas como se a mansão estivesse preparada para uma festa.
Apesar de ser uma visão deslumbrante de luxo e riqueza, Susan tinha a horrível sensação de ter entrado na antessala do inferno!
Lembrou-se, com horror, do último sonho que tivera naquela noite; aquele em que evitara pensar o dia todo: ela entrava pelas portas da mansão, conduzida pelo braço do mascarado que a aconchegara em seu peito na noite passada. Ele estava novamente vestindo o fraque elegante que despira ao se deitar na cama de Anne. Eles subiam a escadaria acarpetada, e caminhavam por um longo corredor, até um quarto luxuoso, preparado como para as núpcias de um casal.
Susan percebera, nesse momento, que não estava tão bem vestida quanto ele: usava a mesma camisola branca que vestira depois de retornar da praia com a irmã; e embora compreendesse quão inadequados eram seus trajes, sobretudo estando em companhia de um homem, não se sentia constrangida. Ao contrário, sentia-se perturbadoramente à vontade.
O mascarado a conduziu para dentro do quarto. A lareira estava acesa; a cama, impecavelmente arrumada, ostentava uma colcha de veludo vermelho deslumbrante; o tecido delicado do dossel era da cor do ouro. Tudo ali inspirava riqueza e elegância.
Ele serviu duas taças de vinho para brindarem. E então, no minuto seguinte, ele a estava afogando com seus beijos, profundos e ardentes.
O coração de Susan disparara no peito. Ela sentia que estava prestes a desabar nos braços dele, mas então, subitamente, com a mesma graça com que a trouxera para junto de si, ele se afastou, recuando até a porta, sem jamais tirar os olhos dela. Havia um brilho perverso nas íris azuis, que se acentuava, à medida que ele se afastava. E então, de repente, as portas se fecharam diante dele.
O coração de Susan congelou no peito, ao mesmo tempo em que a chama na lareira se apagou. Ela se viu sozinha naquele quarto luxuoso, dentro do palácio submerso, mas agora, em lugar dos braços quentes do mascarado que a seduzira, eram as águas geladas do mar de Salem que envolviam seu corpo, de uma maneira desesperadora.
Susan deu um grito esganiçado – e não tinha certeza de tê-lo feito apenas no sonho –, ao se dar conta de que estava sozinha e presa naquela câmara para sempre.
Este sonho a fez despertar ofegante – principalmente porque, desde que as portas foram fechadas, ela simplesmente não conseguira mais respirar –, e terrivelmente assustada. Mais que um pesadelo, parecia um presságio agourento: como se algo terrível e inevitável estivesse prestes a envolver sua vida – a sua, ou a de Anne; no fundo, não fazia diferença. E foi este sonho, mais do que qualquer outra coisa, que a fez evitar qualquer conversa com a irmã o dia todo.
Seu coração clamava para irem embora, mas Anne, com seu espírito explorador, queria conhecer todos os cantos da mansão. Era visível que estava completamente deslumbrada com aquele lugar. E no fundo, embora se recusasse a admitir, Susan se sentia assim também.
Anne encarou a escada por alguns instantes, com o mesmo sorriso animado da noite anterior. O corrimão de ouro primorosamente elaborado brilhava sob a luz fraca do luar. O carpete vermelho que adornava os degraus parecia um convite ao visitante para subir a elegante escadaria. Os candelabros de ouro pareciam insinuar o brilho das chamas no topo das velas...
O sorriso de Anne se intimidou subitamente, enquanto ela se lembrava de que fora ali que perdera o fôlego na noite anterior. Mas em seguida pareceu decidir que, se algum milagre ou magia havia permitido que ela conhecesse a mansão, os meros degraus de uma escada não a deteriam.
Caminhou energicamente até a porta e tomou impulso com o pé, para nadar escada acima, mas assim que retirou os pés do chão, caiu, como se ali dentro não tivesse água.
Susan ajudou a irmã a se levantar, e tateou ao redor, para ter certeza de que a água ainda as envolvia. Era como se estivessem dentro de um aquário, mas alguma coisa prendia seus pés no chão e as impedia de nadar dentro da mansão.
Anne caminhou lentamente para a escada outra vez. E mesmo com o coração apertado, ansioso para ir embora, Susan a seguiu de perto e esperou que ela desse o primeiro passo. Se Anne perdesse o fôlego novamente, ela ainda poderia socorrê-la, como na noite anterior, e talvez convencê-la a não retornar nunca mais àquele lugar.
No fundo tinha esperança de que aquele degrau fosse o limite do mundo sobrenatural onde haviam mergulhado. Se a magia se desfizesse ao tocar nele, e não pudessem descobrir o que havia lá em cima, talvez não ficassem presas naquela casa.
Anne apoiou o primeiro pé na escada, ampliando os temores da irmã, e como nada mudou, firmou os dois pés no primeiro degrau, sondando o ar ao redor. Tudo parecia igual ao resto da casa. Então ela se encheu de coragem e subiu as escadas altivamente, como se fosse a dona da mansão.
Susan esperou que Anne alcançasse o corredor do primeiro andar, e tomando um impulso de coragem para não deixá-la sozinha, subiu atrás dela.
As paredes do corredor pareciam um museu particular, com retratos a óleo de diferentes membros da mesma família; a maioria, réplicas dos que decoravam as paredes do salão principal, intercalados com castiçais de ouro. O mesmo carpete vermelho que cobria a escada se estendia por todo o corredor. Exatamente no meio do caminho entre uma porta e outra, um móvel baixo de madeira de cerejeira abrigava um belo vaso de flores, repetindo-se a cada intersecção. Através de uma janela alta no fim do corredor, o luar penetrava e iluminava todo aquele caminho.
O coração de Susan congelou no peito ao ver a irmã girar a maçaneta de um dos quartos.
“Foi só um sonho”, repetiu para si mesma, tentando se convencer de que a influência mágica daquela aventura havia provocado o pesadelo. Então respirou fundo, como se quisesse garantir que teria fôlego suficiente para voltar, e seguiu a irmã.
O primeiro quarto que abriram devia pertencer a uma menina. A colcha e o tecido do dossel eram cor de rosa, muito claros, assim como as cortinas das janelas. E havia dezenas de bonecas sobre uma cômoda encostada à parede do fundo.
Anne parecia inquieta, como se procurasse alguma coisa que certamente não estava ali.
O quarto seguinte era visivelmente de um casal. Um calafrio percorreu o corpo de Susan, fazendo-a recordar novamente o pesadelo. Mas não fora aquele o quarto que a sepultara no sonho. O tecido prateado do dossel e a colcha azul meia-noite, embora concedessem um ar de riqueza e elegância ao aposento, em nada se pareciam com a decoração do quarto com que sonhara.
Anne mal entrou naquele cômodo. Parecia saber exatamente onde queria chegar. O quarto no fim do corredor a chamava com força.
Ela entrou devagar e espreitou ao redor. A colcha de veludo vermelho estava intacta e a cama parecia ter sido arrumada havia poucos minutos. Havia um resto de vinho em duas taças sobre a mesa de cabeceira, e um livro fechado sobre a mesa de estudos.
O coração de Susan parou. Aquele era precisamente o quarto que ela vira em seu sonho. E mesmo sem nunca ter estado lá antes, os detalhes eram assustadoramente reais. Até o cheiro de madeira queimada parecia impregnado nas paredes, e, podia ser somente uma alucinação, mas ela seria capaz de jurar que viu um filete de fumaça subindo da lareira apagada. Olhou para as taças outra vez, e engoliu seco: a recordação do pesadelo foi tão nítida em sua mente, que ela conseguiu sentir o gosto do vinho em sua boca.
Susan correu de volta para a porta do quarto, e clamou desesperadamente para irem embora, mas Anne parecia não estar ouvindo. Avançava com um olhar encantado pelo quarto, tocando suavemente os objetos em seu caminho.
Susan se deteve na porta, temendo vê-la se fechar, e prendê-las naquele aposento para sempre, como em seu pesadelo. E enquanto esperava a irmã, examinou um símbolo que fora gravado na madeira, provavelmente com um canivete: a mesma forquilha que havia sobre a aldrava de prata na porta da frente, e, ela percebia agora, em todas as outras portas da mansão, como um estranho – e pequeno – brasão de família.
A única porta que não havia sido adornada com aquele símbolo era a do quarto do casal, e Susan não conseguia deixar de se perguntar por quê. Todavia, olhando mais atentamente, a marca era rude demais para um brasão de família. E fora grosseiramente entalhada na madeira; não gravada com esmero, como parte da decoração. O símbolo destoava de todo o luxo e elegância que a mansão inspirava, como se tivesse sido riscado às pressas na madeira das portas, num ato de loucura ou desespero.
Susan teve a sensação de conhecer o símbolo de algum lugar, mas não se lembrava exatamente do significado.
Subitamente seus olhos bateram num pequeno relógio de pêndulo encostado à parede do fundo. Se o mecanismo ainda não havia sido corrompido pela água, elas estavam submersas há exatos vinte e oito minutos.
Ela apontou o relógio para Anne e fez sinal para irem embora. Como se retornasse de um transe hipnótico, Anne apanhou o livro que estava sobre a mesa de estudos, sem que Susan percebesse, e seguiu a irmã de volta ao salão principal, onde encontraram uma figura ainda mais inacreditável do que as sereias da noite anterior.
Parada ao lado do piano, uma garotinha de no máximo dez anos de idade, com os cabelos lisos e castanhos colhidos no alto da cabeça por uma fita de cetim vermelho, as encarava com seus penetrantes olhos azuis.
Usava um vestido de festa feito de seda branca e sapatos brancos de boneca. Seu rosto inspirava jovialidade e inocência; os olhos, no entanto, espelhavam sabedoria e experiência, como se fossem os olhos de uma pessoa que viveu séculos ininterruptos.
As duas irmãs pararam assustadas, encarando a menina com a mesma expressão curiosa. Pensaram que, assim como elas, ela havia despencado do penhasco e sido envolvida por aquela estranha magia que as tornava capazes de respirar embaixo d’água. Mas antes que pudessem dizer alguma coisa, a boca rosada da menina se abriu.
– Vão embora! – clamou a menina, com a expressão horrorizada.
– Você está bem? – perguntou Susan, dando um passo na direção dela.
– Saiam! – gritou a menina, com a voz estridente. – Ele não está aqui. Vão embora!
Elas se entreolharam, confusas. Então, Anne agarrou a mão da irmã e as duas correram para fora da mansão, antes que Susan pudesse perguntar à menina se precisava de ajuda para retornar à superfície. Em sua mente ecoava uma pergunta: O que ela quis dizer com “ele não está aqui”?
Anne estava pálida, como se tivesse visto um fantasma.
Assim que começaram a nadar, Susan avistou o brilho dourado das caudas das sereias vindo em sua direção, e pela expressão em seus rostos, não estavam tão amigáveis quanto na noite anterior.
Com medo de que a magia se desfizesse, e começassem a se afogar a qualquer momento, as duas irmãs nadaram o mais rápido que puderam, até perderem as sereias de vista. Já podiam ver a praia quando uma mão branca de pele sedosa puxou Anne para as profundezas.
Susan tentou ajudá-la a escapar das mãos da sereia loura, mas tudo o que pôde compreender na confusão de cabelos esvoaçantes, foi que Anne lutava para defender o livro que roubara na mansão submersa.
Quando finalmente conseguiu resgatar a irmã, Susan teve o vislumbre do rosto zangado da sereia-líder de olhos amendoados. Não queria descobrir por quê; tudo o que importava era sair logo dali.
O primeiro impulso de Susan, ao alcançarem a praia, foi brigar com a irmã.
– Que estupidez foi aquela? – perguntou Susan, aos gritos. – Arriscar a vida por um livro velho...
– Não é meramente um livro! – Anne gritou de volta. – É um diário!
Disse como se isso obviamente explicasse o ímpeto em defender sua posse.
– Que seja! – murmurou Susan. – O que lhe interessa isso?
Anne deu um suspiro aborrecido.
– Esqueça!

E correu para casa à frente da irmã.


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