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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Quem Deu o Habeas Corpus Para a Bruxa? - 2° Tempo



Por Talita Vasconcelos


Atenção para o Top de três frases mais proferidas no Teatro Máscaras em noite de estreia:
“Quebre a perna!”
“Meu cabelo está bom assim?”
“Cadê o Perry Ricardo?”
Seja falta de sorte, ironia do destino, ou a explicação que quiserem atribuir, certos azares acabaram se tornando rotina nas nossas noites de estreia. Parece brincadeira, mas alguém sempre fica rouco ou perde a voz por qualquer motivo; alguém traz ou é seguido por algum parente ou ficante mala sem alça, que parece não entender que tudo o que acontece no palco de um teatro é encenação – como a namorada sequelada que já mencionei, que invadiu o palco para bater no ator que estava abraçado com um travesti, e a avó biruta de uma atriz que ficou toda emocionada ao vê-la casando em cena –; e, não importa o personagem que tenha sido escalado para fazer, o Ricardo raramente estreia na mesma data que o resto do elenco.

Faltava menos de uma hora para o início da peça, e já estávamos praticamente caracterizados: figurino, maquiagem, e no meu caso e da Cristiana, peruca – pois meu cabelo é curto demais para montar o penteado estilo final do século dezenove da Mina Murray, e como interpretaria o Lobisomem, Cristiana precisava deixar o cabelo mais curto e de um par de orelhas mais salientes.
Tudo colocadinho no lugar, as meninas e eu começamos nossos exercícios de respiração muito tranquilamente; e foi quando a Rafaela Mancini, a outra roteirista do grupo, que sempre nos ajuda soprando o texto quando alguém esquece as falas durante a apresentação, veio ao nosso camarim nos dar duas notícias preocupantes sobre a estreia daquela noite:
– Seguinte, meninas: a assistente da Silvia Rosenthal acaba de vir retirar o ingresso da megera, então preparem-se!
Silvia Rosenthal é crítica de teatro do jornal “Vitrine do ABC”, um periódico semanal, publicado às sextas-feiras, que traz no caderno de cultura críticas e resenhas de filmes e peças de teatro, e dicas de entretenimento para o fim de semana, como shows e exposições. E essa cidadã em particular é famosa por sempre ver o lado negativo de tudo: onde o ator errou, o texto que alguém esqueceu, o pedaço do cenário que caiu – até hoje não entendemos como o Pedrão conseguiu derrubar aquela parede falsa, na apresentação de “Pinguço, Pinguinha e Mais Uma Dose, Por Obséquio”; detalhe: ele não bebeu nada antes nem durante a peça –, a luz do projetor que oscilou por três ou quatro segundos, o figurino que descosturou um pedaço durante uma cena de luta corporal, o efeito ou a sonoplastia que atrasou dois segundos... Enfim, a mulher não fazia a menor questão de ser generosa. Pelo menos com as apresentações de grupos pequenos. Quando criticava a peça de algum ator famoso, aí era outra história: ela se desmanchava em elogios, utilizava toda a sua cartilha de adjetivos suntuosos e puxa-saquismo, e guardava a acidez para miudezas como nós. E não acredito que seja por acaso, ela sempre escolhe nos assistir na noite de estreia – quando todas as merdas acontecem.


– Ok, problema um anotado: Silvia Rosenthal estará na plateia – disse Vick, conferindo se não havia excesso de batom roxo escuro nos cantos dos lábios. Ela interpretaria a Noiva de Drácula, e mais tarde a Noiva de Frankenstein (longa história...). E a criatura é tão branca que quase não precisou de maquiagem para parecer pálida. – Lembre-me de arrotar no meio do segundo ato.
Rafaela franziu o cenho.
– Ué, gente... – disse Vick, na defensiva. – Já que, de qualquer modo essa mulher vai falar mal da gente, então vamos dar a ela algum assunto... De preferência que não seja um rolo de papel higiênico grudado na sola do sapato, se arrastando feito uma calda de noiva pelo cenário...
Abril de 2016. Estreia de Cyrano de Bergerac – ou Cyrano de “Deixa Errar”, como a própria Silvia Rosenthal apelidou –, e Vick foi perfeita em sua citação da crítica da megera.
Por incrível que pareça, aquela foi uma das poucas resenhas em que ela admitiu ter gostado da peça: “uma montagem divertida e inesperada de um clássico caricato em tom de comédia”. Nenhum de nós entendeu aquele lapso de generosidade. No mínimo, o bofe a pediu em casamento naquele fim de semana, logo depois da nossa apresentação de estreia...
Seja lá como for, essa ainda não era a preocupação principal.
– Você disse que tinha duas notícias – lembrou Vick. – Qual é a segunda?
– O Ricardo sumiu – desembuchou Rafaela.
– Ricardo sumiu em noite de estreia... – recitou Cristiana. – Conta agora a novidade!
Vamos abrir uma página rápida do dossiê Ricardo Casagrande e seus imprevistos em noites de estreia:
Junho de 2015. “Quanto Vale a Sogra?”: Não me perguntem como, mas ele conseguiu ficar preso dentro da tribuna de madeira do leilão, que nem o Joey Tribbiani preso na estante da sala num episódio de Friends.
Outubro de 2015. “O Halloween No Assombrado Convento das Freiras Corintianas Apostólicas Romanas”: o cidadão dormiu no lugar errado, acordou com uma cobra em posição obscena tatuada na cara com tinta permanente. E ele interpretaria a Madre Superiora! (Não perguntem!)
Abril de 2016. “Cyrano de Bergerac”: um piriri de última hora provocado pelo sarapatel da nova birosca baiana do bairro me transformou numa Roxane lésbica, e colocou dois Cyranos em cena no último ato; um deles arrastando o já citado papel higiênico/calda de noiva.
Dezembro de 2016. “Jingle Bell Rock’n Roll and Sete Anões, Quatro Maçãs Envenenadas e Três Elfos Bêbados”: adivinhem de quem era a bunda entalada no frigobar?
– Já procuraram no banheiro? – sugeri. Afinal, a probabilidade era grande, considerando que ele misturou um comprimido não identificado com vodca mais cedo.
– Em todos eles – assentiu Rafaela.
– Certo, vou dar uma olhada por aí e ver se o encontro – disse Valentina, levantando-se e saindo.
– Vou falar com o Vicente para ele ajudar nas buscas – disse Vick. – Já que ele conhece cada buraco desse lugar como a palma da mão.
– E eu vou ver se o Sidney já terminou de regular todas as luminárias – disse Rafaela, virando-se para sair. – Para ver se aquela mulherzinha não reclama dos nossos holofotes dessa vez...
Uma mão enorme, pintada de um verde doentio surgiu batendo à porta, assim que ela saiu.
– Posso entrar? – perguntou Pedrão, ainda escondido no corredor.
– Pode, paixão – disse Cristiana. – Mas entra com o coração aberto!
Pedrão, caracterizado como Frankenstein, deu uma risadinha ao ver Cristiana transformada em Lobisomem: vestida com uma calça social folgada, suja de terra e meio rasgada, pantufas imitando pés peludos monstruosos, e uma camisa branca enorme e cheia de buracos, toda maltrapilha, com quilos de maquiagem e pelos falsos cobrindo o rosto.
– Estou linda? – perguntou ela, com deboche.
– Maravilhosa! – riu-se Pedrão. – Vou até procurar um padre para casar a gente agora.
– Deixa comigo: eu os declaro Sr. e Sra. Monstro! – brinquei, focalizando-os com a câmera do celular. – Permitam-me tirar a primeira foto para o seu álbum de casamento...?
Eles posaram abraçadinhos. Aquele casal extremamente grotesco ficou até meio fofo na foto.
E depois de dar um selinho cuidadoso na Sra. Monstro, Pedrão nos informou a que veio:
– Eu estava verificando lá na cenografia, e parece que esqueceram de comprar a cobertura de chocolate e de morango para fazer o sangue falso.
– É só dar um toque pro Sidney que ele vai rapidinho lá no mercado comprar – disse Cristiana.
Sidney é o contrarregra. E sonoplasta, zelador, até objeto de cena nos ensaios, e naquele dia especificamente, ele também faria uma voz retumbante para ser o narrador da nossa peça. Enfim, Sidney é pau para toda obra.
– É, mas esqueceu que ele está verificando os holofotes? – observei.
– Hum... Vai ser engraçado Frankenstein e um Lobisomem no mercado – comentou Cristiana, divertindo-se por antecipação.
Fiquei tentada a permitir que eles fossem; a cena provavelmente renderia um bom esquete para a nossa próxima comédia. Mas, por uma questão de bom senso – afinal, as crianças podem não entender que são apenas dois atores comprando cobertura para sorvete, e se assustar com os monstros, ou pior, ficar confusos vendo o Frankenstein e um Lobisomem andando agarradinhos pelas ruas –, me voluntariei para ir.
– Eu tinha pensado em pedir para a Valentina – comentou Pedrão. – Afinal, o figurino dela é o menos constrangedor para sair na rua.
De fato, exceto por estar fazendo mais de trinta graus lá fora, o figurino da Valentina era o mais neutro: legging preta, botas pretas, camisa vermelha, sobretudo vinho e chapéu preto. Nada de mais. Quer dizer, tirando o fato de ser tudo estilo século dezenove...
– Ela foi procurar o Ricardo.
– E, falando nisso, melhor a gente ajudar – disse Cristiana para o namorado. – Se não, vamos ter que fazer a peça sem Múmia.
– Enquanto vocês o procuram, eu vou rapidinho lá no mercado.




Continua...




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