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sábado, 14 de abril de 2018

Com o Coração NO Oceano

Houve uma época em que era comum pessoas criticarem quem gostou do filme Titanic como se a pessoa tivesse cometido um crime hediondo, ou estivesse desfilando pela rua com uma calcinha fio dental na cabeça. E verdade seja dita, muitas dessas pessoas que criticavam quem assumidamente gostou do filme, também gostou, mas não admitia porque estava na moda zoar o fandom.
Agora, já se passaram vinte anos desde que o filme foi lançado – misericórdia, dá até medo mencionar esse fato! –, e vale dizer que, independentemente de a qual facção você pertencia – os que amaram, assumiram e foram zoados com muito orgulho; ou os que amaram, guardaram para si, enxugaram as lágrimas pelo DiCaprio, e aporrinharam os amigos que gostavam de ver fotos do elenco do filme na revista Capricho –, provavelmente vai concordar que Titanic é um dos filmes mais bonitos já produzidos.
James Cameron rodou simplesmente a versão definitiva do filme. Afinal, Titanic de 1997 não foi o primeiro filme a mostrar o naufrágio do famoso transatlântico, mas alguém aí se lembra dos outros?
Hein?
Lembra?
Pois é...
E olha que houve uma versão lançada menos de um ano antes, somente para televisão, estrelada por Catherine Zeta-Jones – a linda Helena De La Vega que roubou o coração de Antonio Banderas nos dois filmes mais recentes do Zorro – e Peter Gallagher – o bonitão que passou toda a semana do Natal em coma, sem saber que estava noivo da Sandra Bullock, enquanto ela arrastava uma asa para o seu irmão Jack, em Enquanto Você Dormia –, com roteiro não muito diferente do filme de James Cameron, focado em outros passageiros do Titanic, a maioria personagens reais, e que também realçava a distinção das classes sociais a bordo. Curiosamente, esse telefilme só chegou ao Brasil alguns anos depois do filme de Cameron ter virado hype, e alguma emissora muito espirituosa – ou muito sem noção, o mais provável – o exibia com o título Titanic 2! Como se fosse possível produzir uma continuação da história de um navio que está no fundo do oceano...
E na verdade houve um Titanic 2 no cinema, lançado em 2010, que contava a história de outro navio, que no centenário do naufrágio recebeu o mesmo nome do fatídico transatlântico, e teve a missão de refazer sua rota em sentido contrário – de Nova York à Inglaterra –, mas um tsunami lançou icebergs em sua rota – insinuando que talvez o nome do navio estivesse amaldiçoado.
Pouca gente se lembra desses dois fiascos hoje em dia, filmes que tentaram reproduzir a ideia maravilhosa de James Cameron – o de Catherine Zeta-Jones correu para se lançar primeiro, mas o filme de Cameron já estava em processo de produção desde 1995 –, só que sem a mesma habilidade, e, sem dúvida, com orçamentos MUITO menores.
Mas voltando algumas décadas no tempo, Hollywood produziu vários filmes baseados na tragédia. Um deles, Saved from the Titanic, lançado apenas 29 dias após o naufrágio, foi escrito e estrelado pela atriz Dorothy Gibson, sobrevivente da tragédia. Claro que estamos falando da época em que os filmes eram mudos, e este, em particular, foi um curta-metragem de 10 minutos, então, não estranhem ele ter sido gravado, editado e lançado em tão pouco tempo. Eram outros tempos, outra tecnologia, um outro mundo.
Aliás, este foi um dos primeiros filmes a utilizar cor em pelo menos duas cenas gravadas em Kinemacolor. Pena o filme ter se perdido, já que suas últimas cópias foram destruídas num incêndio. Quem sabe um dia descubram que aconteceu com ele o mesmo que com Nosferatu, que sobreviveu graças à cópias piratas.
A versão que teve maior visibilidade foi A Night To Remember (Somente Deus Por Testemunha), de 1958, baseado no livro homônimo de Walter Lord, um documentarista americano. O filme até teve boa bilheteria na época em que foi lançado, e foi bastante aclamado por historiadores e sobreviventes do Titanic por sua precisão histórica, mas posteriormente acabou esquecido.
O que nos traz de volta ao tão injustamente difamado filme de James Cameron, e ao motivo de ele ter feito tanto sucesso. Este foi o primeiro filme a focar na tragédia humana, em vez do desastre histórico. Mas para explicar melhor a descoberta do sucesso de Cameron, é preciso explicar como ele foi concebido.
Quando iniciou seu projeto, James Cameron, na verdade, não planejava rodar um filme sobre o Titanic. O que ele queria era um financiamento para poder explorar pessoalmente os destroços do navio no fundo do oceano. É sério!
Os destroços do Titanic foram encontrados em 1985, mais de 70 anos após o naufrágio, porque, de duas uma: ou o navio seguiu em diagonal enquanto afundava, afastando-se vários quilômetros do local do naufrágio enquanto descia mais de três quilômetros oceano abaixo, ou – o mais provável –, o Quarto Oficial do Titanic, Joseph Boxhall, responsável por atualizar a posição do navio, se equivocou ligeiramente nos cálculos das coordenadas de sua localização quando pediu aos operadores de rádio que transmitissem a mensagem de socorro. Esta hipótese é aceitável, pois, de acordo com depoimentos dos Oficiais do Carpathia, o navio que recolheu os sobreviventes no mar na manhã da tragédia, eles demoraram um pouco mais que o previsto para encontrar os botes, pois estavam a 21 km das coordenadas que receberam pelo rádio. Vale ressaltar que na tarde de 14 de abril, o Capitão Smith, depois de receber vários alertas de gelo dos navios que iam à frente do Titanic, mandou que a rota do navio se alterasse um pouco para o sul – provavelmente ao mesmo tempo em que ordenou que aumentassem a velocidade –, então é possível que Boxhall tenha realmente se enganado um pouquinho nos cálculos quando deu as coordenadas ao operador de rádio. Também é possível que o rapaz não tenha entendido algum dos números rabiscados pelo Oficial, e decidido que não faria muita diferença transmitir, por exemplo, 21 ou 27, mas isso é especulação minha...
Mas como ia dizendo, desde que foram encontrados, os destroços do Titanic atraíram muita curiosidade. Diversas expedições foram enviadas ao fundo do oceano – e bota fundo nisso: o navio foi encontrado a 3.843 metros de profundidade, 650 kms ao sudeste de Terra Nova, Canadá, cercado por um campo de detritos de aproximadamente 8 km, com objetos e peças do navio que se espalharam enquanto ele afundava, ou quando ele atingiu o fundo do mar – para explorá-los, examinar sua conservação ou deterioração, e trazer pedaços e objetos à superfície para serem estudados e, mais tarde, expostos em museus dedicados às vítimas da tragédia. Grandes placas de ferro do casco do navio foram resgatadas do naufrágio, e através delas foi possível constatar que o Titanic foi construído com a estrutura básica de um navio de guerra, o que certamente colaborou para as lendas sobre sua invulnerabilidade.
Um fato curioso é que, embora tenha sido amplamente divulgado posteriormente, nenhum jornal ou veículo de mídia da época havia descrito o Titanic como “insubmergível” ou “inafundável” até ele naufragar. Ele era descrito como “luxuoso”, “gigante”, “o maior navio do mundo”... Mas “inafundável” só lhe foi atribuído após o desastre. Provavelmente por algum jornalista irônico da época...
James Cameron era fascinado por naufrágios, e passou anos obcecado em explorar os destroços do Titanic. Mas é claro que estúdios como a Paramount e a 20th Century Fox não financiariam essa expedição a troco de nada. Então Cameron os convenceu de que ele queria explorar o local do naufrágio para fazer um filme. Ele só não havia decidido ainda como seria esse tal filme; talvez um documentário...
A bordo de um submarino extremamente resistente, numa área altamente perigosa, onde a pressão de 6.000 libras por polegada quadrada da água, e uma mínima falha na superestrutura do submarino poderia condenar todas as pessoas a bordo, inclusive o diretor, Cameron realizou seu sonho de descer mais de três quilômetros no fundo do Atlântico Norte, e ver de perto os destroços do famoso navio.
As tomadas que vemos no filme, que mostram imagens do navio no fundo do mar foram feitas durante esta expedição. O submarino conseguiu acessar partes impensáveis do sítio arqueológico – e, pelo que se sabe, foi responsável pelo desabamento de parte da estrutura por causa de um pequeno acidente de percurso numa manobra –, filmar partes preservadas do navio, inclusive salões e o interior da cabine do Capitão, objetos pessoais, sapatos abandonados numa posição que indica que ali, mais de setenta anos antes, foi o local de descanso eterno de uma das vítimas, há muito decomposta...
Ao retornar desta expedição, Cameron afirmou ter finalmente compreendido o Titanic, e tudo o que o navio e seu naufrágio representaram na época. E ele percebeu que não poderia simplesmente escrever mais um filme técnico, explicando os eventos que levaram ao naufrágio do maior navio de passageiros do início do século XX. Ele precisava conectar as pessoas à tragédia humana, ao trauma das vítimas, e ao que os sobreviventes carregariam ao longo de suas vidas após aquela noite. E para isso, antes de mais nada, ele precisaria criar a identificação do público com algumas das vítimas, para que se pudesse compreender a dimensão da tragédia.
Assim ele criou nosso casal tão polêmico, tão divisor de opiniões, e, indiscutivelmente, tão admirado por apoiadores e alopradores do filme.
Para início de conversa, ele precisava de um casal jovem, porque, partindo do princípio de que Cameron, indiretamente, se colocou dentro do filme, na pele do explorador de naufrágios e caçador de tesouros Brock Lovett, que ouviria a história do Titanic da boca de uma sobrevivente, precisava de alguém que tivesse possibilidade de ter chegado vivo a 1997, oitenta e quatro anos após a tragédia, e com lembranças nítidas daquele episódio, logo, não poderia ser uma criança. Ele forçou a idade de sua protagonista até o limite aceitável: 17 anos, na época do naufrágio; mais ou menos 101, na época do filme. Para quem gosta de colecionar coincidências intrigantes: Edith Eileen Haisman, uma das mais longevas sobreviventes do Titanic, morreu em janeiro de 1997 – mais ou menos dez meses antes da estreia do filme –, aos 100 anos de idade – completados em outubro –, ela tinha quinze anos quando o Titanic afundou; Lillian Asplund, a antepenúltima sobrevivente a deixar este mundo, morreu em maio de 2006 – ela tinha seis anos na época do naufrágio, e completaria cem anos em outubro –; a última sobrevivente a morrer foi Millvina Dean, em maio de 2009, aos 97 anos – ela tinha dois meses de idade na época do naufrágio. Esta, pelo menos, não tinha lembranças traumáticas daquela noite, exceto o que posteriormente lhe contaram. E aposto que estas últimas se identificaram com o filme.
Em toda a sua carreira como cineasta, Cameron sempre gostou de contar histórias de amor, e decidiu que esta era precisamente a melhor maneira de contar a história do Titanic, e conectar o público a uma tragédia tão distante. Afinal, quem não gosta de um bom romance? Assim nasceram Jack e Rose, o Romeu e Julieta do Titanic.
E não dá para negar que ele foi certeiro! Jack é engraçado, bem-humorado, otimista, e, se Leonardo DiCaprio não é tão gato quanto algumas pessoas apregoam, também não desagrada aos olhos de ninguém; e Rose é divertida, extrovertida, sem frescuras, sem preconceitos, consegue superar suas fragilidades e sabe ser determinada quando quer.
Pelos primeiros noventa minutos do filme, Cameron nos apresenta os personagens, conta como eles embarcaram nessa viagem, como se conheceram, como se apaixonaram, e faz com que o público também se apaixone por sua história. Só quando já estamos seduzidos pelo casal, ele revela a noite do naufrágio, e faz com que seus personagens permaneçam no navio até o fim, e depois fiquem à deriva, não quentinhos nos botes, de onde teríamos apenas uma visão parcial do desespero das pessoas que ficaram flutuando na água, a minutos de morrerem congeladas se a ajuda não se apressasse. Não. Cameron permitiu que seus protagonistas estivessem entre essas pessoas, para que o público sentisse até o fim a angústia das vítimas. Porque, naturalmente, ao assistir esse filme pela primeira vez, todo mundo torcia pela sobrevivência do casal. Sabíamos que Rose sobreviveria, afinal, era ela quem estava contando a história, mas torcíamos também por Jack. E posso apostar que a maioria de vocês ficou puto ao ver que o Cal sobreviveu.

James Cameron verdadeiramente conectou o público com aquela tragédia, e fez isso brilhantemente. E o mais importante, ele não deu nenhum ponto sem nó. Ao longo dessa primeira hora e meia de filme, ele utilizou os personagens que criara e alguns personagens inspirados em pessoas reais para lançar informações que ajudam a entender o que realmente aconteceu naquela noite trágica de abril de 1912, e o que levou o Titanic a naufragar. Mas falaremos disso durante a resenha.


A equipe de caçadores de tesouros liderada por Brock Lovett mergulha até as profundezas do Atlântico Norte a bordo de um submarino, para explorar os destroços do Titanic, em busca de um diamante conhecido como “Coração do Oceano”, que, até onde se sabe, naufragou com o navio. Seu prazo e seu financiamento estão acabando, por isso é importante encontrá-lo o quanto antes. Com o auxílio de um robô, eles conseguem acessar um camarote da primeira classe, e trazer um cofre à superfície, no entanto, ao abri-lo, encontram apenas o desenho de uma mulher nua usando a tão almejada joia, datado em 14 de abril de 1912, o dia em que o Titanic colidiu com o iceberg.

Para sorte do pesquisador, a mulher do desenho ainda está viva, e vê pela televisão sua entrevista, revelando a descoberta do desenho, e decide revisitar o passado, e compartilhar com a equipe de Lovett suas lembranças da fatídica viagem.
Bodine, outro membro da equipe de exploradores de naufrágios, e ao que tudo indica, perito neste naufrágio especificamente, desconfia da mulher, pois, de acordo com sua pesquisa sobre os passageiros, Rose DeWitt Bukater, a modelo do desenho, morreu no naufrágio do Titanic, aos dezessete anos. Se estivesse viva, ela estaria na casa dos cem!
Ficaria surpreso com a lucidez de algumas pessoas, Sr. Bodine. Só que ele tinha mesmo algumas razões para desconfiar da história da senhorinha, afinal, ela supostamente embarcou como Rose DeWitt Bukater, com uma passagem de primeira classe; mas pelo que ela contou ao telefone, e o que conseguiram averiguar, seu nome de solteira era Rose Dawson, e ela foi atriz nos anos 1920 – o que, para Bodine, é mais uma evidência de que essa mulher é uma impostora em busca de publicidade. Ela se casou com um homem de sobrenome Calvert, teve dois filhos, e ficou viúva há várias décadas.
Querem mais uma coincidência? A atriz Gloria Stuart, que interpretou a idosa Rose, tinha 87 anos na época do filme, e precisou que a equipe de maquiagem a fizesse parecer mais velha. James Cameron queria uma atriz aposentada da Era de Ouro de Hollywood – anos 1930 ou 1940 – para interpretar a personagem, e Stuart estava tão lúcida que conquistou o papel no primeiro teste. Ela morreu em 2010, aos 100 anos de idade – aproximadamente, a mesma idade de sua personagem.

De volta ao filme, pelo sim, pelo não, os pesquisadores decidem trazer a senhorinha a bordo, e averiguar se ela tem alguma informação a respeito do paradeiro do diamante. Ela é levada até o barco de pesquisa por um helicóptero, acompanhada de sua neta Lizzy, e acomodada num camarote muito menor do que o que ocupou no Titanic, e pede para ver seu desenho.
Claro que Rose não foi trazida a bordo para falar sobre um pedaço de papel, mas sobre o diamante azul com o qual foi retratada. Sabem que o diamante viajou da Europa para a América a bordo do Titanic, e que ele era conhecido como o “diamante azul da coroa”, pois pertenceu a Luís XVI da França – o marido de Maria Antonieta. Quando Luís perdeu tudo, inclusive a cabeça, o diamante foi cortado – mas não na guilhotina –, lapidado e incrustado no colar que chamaram de “O Coração do Oceano”. Rose só lembra que era uma coisa grande e pesada, e que o nome do reclamante dele na época do naufrágio era Nathan Hockley, um milionário do aço de Pittsburg, cujo filho, Caledon, o comprara para sua noiva, Rose. O diamante tinha seguro e o reembolso foi feito após o naufrágio, o que criou o mito de que ele afundara com o navio.
Mal sabe ele que Rose não o ajudará a encontrar o diamante. Mas enriquecerá seus conhecimentos sobre o Titanic.

Primeiro a equipe reaviva as lembranças de Rose, mostrando a ela objetos pessoais que resgataram do camarote naufragado junto com o cofre, como um pente enfeitado e um espelho de mesa.
E depois de ouvir de Bodine uma aula teórica sobre como o Titanic afundou, Rose finalmente começa a compartilhar suas lembranças daquela viagem desde o princípio.

O Titanic se preparava para zarpar do porto de Southampton na manhã de 10 de abril de 1912. Os tripulantes faziam a vistoria sanitária dos passageiros da segunda e terceira classe – somente a terceira classe era realmente obrigada a passar por essa revista, para garantir que não tinham piolhos –, quando Rose, então com dezessete anos e o rosto de Kate Winslet, chegou ao porto, acompanhada de sua mãe, Ruth DeWitt Bukater e seu noivo Caledon Hockley, cuja empresa, segundo ele, forneceu aço para a construção do navio. Para ela o Titanic não pareceu tão impressionante quanto a imprensa o descrevera, nem parecia tão maior que outros navios que ela já tinha visto, como o RMS Mauretania, que até aquele momento detinha o título de maior navio de passageiros do mundo.
Reza a lenda, que foi um funcionário da White Star Line, companhia de navegação para a qual o Titanic operava, quem supostamente fez essa afirmação no cais no dia em que o navio zarpou. Mas Cameron não podia introduzir tantos personagens aleatórios no filme, então transferiu a fala ao Cal.

Em sua narrativa, Rose explica que seu desinteresse pelo Titanic estava relacionado ao seu noivado forçado com aquele homem.
Enquanto isso, num Pub perto dali, Jack Dawson ganha duas passagens de terceira classe para o Titanic num jogo de pôquer.
Notaram que eu parlo italiano com o sotaque de um cubano bêbado, né?
Depois que o convés se esvazia, e o navio ganha o mar, os rapazes fazem a maior festa, e é quando vemos uma das cenas mais icônicas do filme, quando Jack sobe na amurada da proa, abre os braços e grita: “EU SOU O REI DO MUNDOOOOOOOO!!!”. Enquanto o Capitão Smith os observa, satisfeito, lá da ponte de comando.
O Titanic fez duas paradas antes da travessia do Atlântico: a primeira em Cherbourg, na França, e a segunda em Queenstown, na Irlanda, mas só a primeira foi mencionada no filme, e  apenas por um motivo: foi onde Margaret Brown, aquela nova rica simpática que passou o filme inteiro sendo hostilizada pela mãe de Rose, embarcou. O marido dela tinha encontrado ouro na América, mas ambos eram de origem bem mais humilde, por isso ela ainda não havia conseguido conquistar a simpatia de pessoas de sangue mais ou menos azul, como Ruth DeWitt Bukater. Embora tenha sido chamada de Molly o filme inteiro, este foi um apelido póstumo; durante sua vida, ela era chamada de Maggie.
Outras personalidades reais e importantes que estavam a bordo eram Joseph Bruce Ismay, presidente da White Star Line, e Thomas Andrews, um dos engenheiros responsáveis pelo projeto do navio, que almoçaram juntos numa das primeiras cenas a bordo. Nessa cena, Ismay explica que o nome Titanic – uma derivação de Titã, seres gigantescos da mitologia grega – foi escolhido por causa do magnífico tamanho da embarcação.
Foi ainda na primeira noite a bordo do Titanic que Rose cogitou cometer suicídio. Ela estava cansada do mundo em que vivia, cercada de pessoas vazias e conversas sem conteúdo, sem que ninguém notasse ou se importasse com o quanto ela estava infeliz. E é nesse momento que ela conhece Jack.

Ele estava deitado num banco no convés superior, admirando as estrelas, quando ela passou correndo em direção à popa do navio. Evidente que todos conhecemos bem a cena: Rose pula as grades da amurada, e encara a água lá embaixo, preparando-se para se atirar no mar; eis que nosso herói se aproxima, oferecendo-se para pular atrás dela se ela fizer essa loucura, embora acredite que se ela quisesse realmente se atirar do navio, teria feito sem hesitação. E embora a queda seja muito alta, o que mais o preocupa é a temperatura congelante da água lá embaixo, que fará parecer que tem mil facas entrando em seu corpo, e os impedirá de respirar.
Calmamente ele a convence a voltar para o navio, e são flagrados justamente quando a situação é a mais comprometedora possível: quando ele a puxa para dentro, os dois caem no convés, Jack cai por cima de Rose, e os marinheiros chegam a pensar que ele a está atacando. Cal fica furioso ao encontrá-los juntos, mas Rose explica que Jack salvou sua vida, e inventa uma história absurda sobre ter se debruçado na amurada para ver a hélice, e escorregado, e que ela teria caído para a morte se Jack não a tivesse segurado a tempo.
A propósito, esse cara que aproveitou a situação para tirar sarro é o Coronel Archibald Gracie IV, uma das mais importantes personalidades a bordo do Titanic, e um dos mais ilustres sobreviventes – embora tenha morrido em dezembro do mesmo ano, de diabetes.

Pelo menos, o figurão – no filme – era uma pessoa consciente, e sugeriu ao Cal que seria conveniente dar uma gratificação ao rapaz por ter salvo a vida de sua noiva, ao que o milionário manda seu guarda-costas, Spicer Lovejoy, dar vinte dólares a Jack.
Bem, Cal pode ser um corno conformado, mas Lovejoy percebeu a incoerência na história de Rose ter escorregado tão de repente, e Jack ter tido tempo de tirar o casaco e desamarrar os sapatos para salvá-la, e decidiu ficar de olho nele.

Rose continua melancólica com sua vida, afinal, ela continua presa à imposição do noivado, ao Cal e tudo o que ela odeia. Mas seu noivo tem algo para alegrá-la: um lindo colar de diamante azul, de 56 quilates, que pertenceu a Luís XVI de França, conhecido como Coração do Oceano, bem apropriado para a realeza. Não que eles sejam da realeza, exatamente...
É claro que Rose tinha lá seus princípios, mas bem que ela ficou tentada diante de uma joia tão fabulosa.
No dia seguinte, durante o café, Ismay tenta convencer o Capitão Smith a acender as últimas quatro caldeiras e aumentar a velocidade do navio, pois são esperados em Nova York na quarta-feira pela manhã, mas se conseguirem surpreendê-los chegando na terça-feira à noite, atrairão ótimas manchetes publicitárias para o Titanic, impressionando o grande público não só pelo tamanho e conforto da embarcação, mas também pela velocidade, e com isso, Smith ganharia tanto dinheiro que poderia se aposentar, mas o Capitão preferia não forçar os motores até que estivessem bem amaciados.
Eu tinha dito que ao longo da resenha trataríamos das circunstâncias que levaram ao naufrágio, e que Cameron teve o cuidado de incluir no filme. Pois bem, durante os inquéritos que se seguiram ao naufrágio do Titanic, diversos passageiros contaram que ouviram Ismay, presidente da White Star Line, fazer essa proposta indecente ao Capitão, e pressionar os Oficiais para aumentarem a velocidade, mas no final, a comissão americana de inquérito decidiu que não havia provas de que Ismay tivesse tomado essa atitude. Sinal de que não é de hoje que ricos e poderosos saem incólumes de suas acusações.
Outro fato muito divulgado, mas nunca comprovado, é a versão de que o Capitão Smith planejava se aposentar após a viagem inaugural do Titanic. Uma outra versão conta que a White Star Line pretendia manter Smith no comando do Titanic até o lançamento do HMHS Britannic – projetado para chamar-se Gigantic, mas o nome foi alterado após o naufrágio de seu irmão do meio, para evitar superstições –, agendado para 1914.

Prosseguindo com o filme, naquele dia Rose encontrou-se com Jack para um passeio no convés da primeira classe, para agradecer por seu salvamento e pela discrição diante de seu noivo. E aproveitou para conhecer a obra daquele charmoso passageiro da terceira classe. Jack era artista, e apesar de sua situação financeira modesta, vivia de um lado para o outro, percorrendo o mundo em busca de inspiração para seus desenhos. Aparentemente ele acabava de vir de uma longa temporada em Paris, onde retratou diversas mulheres nuas, e onde produzia retratos a dez centavos cada. Rose, que desde o princípio nos foi apresentada como amante das artes, ficou fascinada com o trabalho do rapaz. E confessou que gostaria de ser livre como ele.
Aliás, essa é uma cena que deixa claro como Rose era – ou desejava ser – inadequada para os padrões de uma moça da alta sociedade do início do século XX. Ela não tem o menor pudor em se debruçar na amurada do convés de passeio coberto e começar a treinar cuspe à distância com Jack bem diante dos narizes empinados dos demais passageiros da primeira classe.

Pelo menos, até serem interrompidos por sua mãe, que vinha passando com a Condessa de Rothes e com a espirituosa e simpática Molly Brown, que, percebendo os trajes modestos do rapaz, decidiu lhe emprestar um smoking comprado para o seu filho, para que ele se mostrasse apresentável no jantar daquela noite com os grã-finos. Afinal, ela sabia bem o que era não ser aceita por causa de suas origens humildes.
Assim, bem trajado, e imitando a pose pomposa dos cavalheiros, Jack é recebido como um nobre na área social da primeira classe. Um tratamento muito diferente do que ele receberá no dia seguinte, quando retornar àquele salão para procurar Rose, vestido com suas roupas puídas, e será escorraçado pelos mesmos funcionários que naquela noite lhe deram passe livre graças ao smoking do filho de Molly.

O interessante é que Cal quase nem se importa que o rapaz desfile de braços dados com Rose pelo salão de jantar. Afinal, se é para levar chifres, pelo menos, que seja de um cavalheiro bem vestido.
Fazendo as vezes de cicerone, e de quebra, nos apresentando as personalidades a bordo do navio, Rose coloca Jack a par das fofocas a respeito das pessoas com quem está prestes a jantar.

 
Conheço um provérbio que diz que quanto mais alta a posição social de uma pessoa, maiores os pecados escondidos debaixo de seu tapete, e menores os dedos que apontam para eles.
Que é? Vão me dizer que nunca viram esse provérbio? Mas se eu o inventei agorinha mesmo! Admitam, faz todo sentido, não é?
Hein?
Ok...

Enquanto entram no salão de jantar, Rose cuida em fazer as apresentações; naturalmente, sem explicar que Jack é um visitante da terceira classe. Como ele está vestido como um nobre, ninguém desconfia que ele é um artista pobretão.
Quando Cal pega Rose de volta, Molly dá o braço a Jack e sugere que ele finja ser um deles, porque se ele fizer tudo certo, ninguém será capaz de perceber que não é. E os acontecimentos da noite mostram que ela tinha razão. Todas as pessoas à mesa o aceitaram como um deles, julgando-o pelo modo como estava vestido; presumiram que era um novo rico, talvez um herdeiro de ferrovias, mas um membro do clube de qualquer modo.

Ao menos, até a desagradável mãe de Rose abrir a boca...
Acho que é desnecessário dizer que Jack não é o tipo de cara que tem vergonha de sua posição, ou que se deixa abalar por um comentário hostil. E esse é um dos motivos que fizeram tanta gente chorar por ele em 1997. Mas não vamos adiantar os fatos.
Para tentar diminuir o constrangimento de sua mãe da cena, e desviar a atenção da situação financeira de seu convidado e salvador, Rose comenta que Jack é artista, e que ele lhe mostrou seu fascinante trabalho esta tarde, ao que Cal, tão esnobe e desagradável quanto a sogra, retruca que ele e sua noiva divergem sobre o que consideram boa arte.
Molly orienta Jack sobre a ordem de utilização dos talheres, e o garçom fica surpreso quando o rapaz recusa o caviar. Sabe como é, ele prefere uma comida mais... gostosa.

E como Jack é a atração do jantar, a conversa toda é sobre ele – pois, ao que parece, aquela gente não tem muito contato com espécimes de classe tão inferior, e estão muito curiosos para saber como vivem os menos afortunados.
Fiz questão de transcrever esse diálogo, porque é uma das maiores mostras dessa personalidade adorável e cativante de Jack.
E aqui aproveito para comentar que, embora levantem muita controvérsia a respeito do talento de Leonardo DiCaprio, sobre ele ter ou não se aproveitado de seu rostinho bonito – pero no mucho – para fazer fama no cinema – o que eu discordo –, é impossível não simpatizar com seu personagem nesse filme. Jack foi convidado àquela mesa por seu rival para ser o macaco de circo dos grã-finos, e conseguiu não somente não ser ridicularizado, como Cal esperava, como ainda os impressionou com a única coisa que o dinheiro daquelas pessoas aparentemente não podia comprar: sua alegria de viver. Eu tiro o chapéu para o Leo, e para o gênio James Cameron que escreveu um personagem tão fascinante em seu roteiro.
Na sequência do jantar, Jack já não é mais o centro das atenções. E temos a oportunidade de ver Molly – tão gente como a gente, e indiscutivelmente uma das personagens mais bacanas desse filme – contando uma história engraçada sobre um dia em que seu marido chegou em casa bêbado como um gambá – escolha de palavras jamais utilizada pelos ricaços naquela mesa; não em público, pelo menos –, e totalmente esquecido de que tinha guardado dinheiro dentro do forno.

Eis que chega a hora de os cavalheiros se retirarem para um Brandy na sala de fumar. E Jack aproveita para se despedir, pois conclui que já é hora de retornar à área dos escravos. Mas não sem antes deixar um bilhete escondido na mão de Rose, ao beijar seus dedos em despedida.
Agora é a vez de Jack levar Rose para junto de seus companheiros de viagem e apresentar seu mundo a ela: um mundo muito mais modesto, porém, em que as pessoas não se escondem por trás de frescuras ridículas e gestos contidos, fingindo tolerar umas às outras, e se permitem um pouco de diversão genuína. E mesmo com Rose afirmando que não sabe dançar como aquelas pessoas, Jack a arrasta pela pista de dança, girando e saltitando na maior alegria. A certa altura, ela simplesmente tira os sapatos, manda os escrúpulos para o inferno, e se deixa levar.
Que fique registrado: aquilo não é refrigerante, é cerveja preta!

E só vou colocar essa foto porque tenho certeza de que 99% das pessoas que estão lendo essa review tentaram fazer isso depois de assistir ao filme. O restante 1% tentou fazer isso durante o filme. Digam aí, quantos conseguiram? Me: not. Rs.
Enquanto isso, no lustre do castelo, Cal está paradão feito bocó na sala de fumar, deixando claro para todo mundo o quanto ele e seus amigos janotas são enfadonhos, e como o pessoal da terceira classe sabia se divertir muito mais do que os ricaços a bordo do Titanic.
Teria sido um início de namorico perfeito, se Lovejoy não tivesse seguido a mocinha e fofocado tudo ao noivo dela, para que lhe desse um esporro no dia seguinte durante o café da manhã. E como se não bastasse o jeito dominador de Cal agredi-la com a louça no café, sua mãe aproveitou enquanto a ajudava a apertar o espartilho para lembrá-la de que a única coisa que as separava da ruína financeira era o iminente casamento dela com Cal.

Rose, sua mãe e seu noivo saem para passear naquela manhã com Thomas Andrews, e aproveitam para conversar um momentinho com o Capitão Smith, e é quando ficam sabendo de algumas coisinhas.
O Titanic vinha recebendo avisos de gelo de outras embarcações desde o dia 12 de abril. A primeira mensagem foi enviada pelo SS La Touraine, alertando sobre uma névoa densa, uma espessa camada de gelo na superfície da água e vários icebergs em diferentes pontos do oceano. As mensagens eram imediatamente entregues ao Capitão Smith, e em seguida registradas no diário de bordo por um dos Oficiais.

E quais foram as providências tomadas?
Pois é, Sr. Bodine. Como Lovett mesmo explicou ao ouvir essa parte da história de Rose, os vinte e seis anos de experiência do Capitão não valeram de nada. Ele achou que se tivesse algum problema, veriam a tempo. Só que o Titanic era um navio muito grande com um leme muito pequeno; demoraria demais para virar, como veremos mais à frente.

Pois o aviso de gelo não foi a única informação inserida naquele passeio de Rose com o engenheiro do navio. Enquanto passeavam pelo convés dos botes, Rose os contou, e teve a impressão de que não havia botes suficientes para todos a bordo.
A afirmação do Sr. Andrews no filme na verdade, não é exata, mas está mais ou menos correta. O Titanic estava equipado com vinte botes salva-vidas, sendo catorze com capacidade para 65 pessoas, dois cúteres de emergência com capacidade para quarenta pessoas, e quatro botes desmontáveis Engelhardt com capacidade para 47 pessoas. De modo que, teoricamente, os vinte barcos poderiam acomodar 1.178 pessoas, ou seja um terço da capacidade total do navio, que seria de 2.435 passageiros e 892 tripulantes, que totalizariam 3.327 pessoas. Entretanto, em sua única viagem, o Titanic transportou cerca de 1.316 passageiros – supostamente, a lista nunca foi oficialmente concluída, porque ela incluía nomes de pessoas que cancelaram a viagem na última hora, e algumas pessoas embarcaram com pseudônimos. Seja lá como for, e apesar do desembarque de alguns passageiros durante as paradas na França e na Irlanda, o Titanic fez a travessia com mais ou menos 2.208 pessoas a bordo, das quais mais ou menos metade caberiam nos botes. Somente 710 pessoas conseguiram embarcar neles durante o naufrágio, pouco mais da metade de sua capacidade total.
E apesar de parecer estranho esse número tão insuficiente de barcos salva-vidas a bordo do navio, o Titanic carregava mais botes do que as legislações marítimas exigiam na época, pois acreditava-se que navios daquele tamanho demorariam para afundar, de modo que os botes serviriam apenas para transportar os passageiros para o navio de resgate. As leis marítimas foram alteradas em 1914, através da Convenção Internacional Para a Salvaguarda da Vida Humana no Mar, exigindo que os navios sempre tivessem botes suficientes para todos a bordo.
Há ainda uma lenda de que os navios da época estavam sendo projetados para servir como seus próprios botes salva-vidas, e permanecer flutuando com os motores desligados pelo tempo necessário até que o socorro chegasse e todos os passageiros fossem transportados em segurança, o que poderia até ter acontecido com o Titanic, não fosse por uma circunstância muito especial, de que falaremos daqui a pouco.

Jack vai ao encontro de Rose quando ela está retornando desse passeio, e ela, sentindo-se pressionada pela conversa que teve com a mãe pela manhã, tenta dispensá-lo, mas ele percebe que ela não está sendo sincera.
A princípio, Rose volta para junto de sua mãe, deixando Jack arrasado com a rejeição. Mais tarde, porém, depois de ter passado a maior parte do dia ouvindo a mãe se gabando com a Condessa e com Molly sobre os preparativos para o suntuoso casamento, e finalmente se dando conta da tortura que sua vida se tornará se seguir em frente com este arranjo, Rose finalmente toma a decisão que mudará sua vida para sempre: ela vai ao encontro de Jack na proa do Titanic ao entardecer, e diz que mudou de ideia, e que quando o navio aportar, ela irá desembarcar com ele, rumo ao desconhecido.

E então, vemos outra das cenas mais icônicas desse filme, quando o casal se equilibra na proa do Titanic, e Jack a faz voar de olhos fechados, cantarolando em seu ouvido, antes de beijá-la pela primeira vez.
E não me venham com isso de que a música é enjoativa...
Enfim, somos então transportados para uma imagem da mesma proa naufragada, oitenta e quatro anos depois, e a Sra. Rose nos diz que aquela foi a última vez que o Titanic viu a luz do dia. Estamos rememorando o entardecer do dia do naufrágio.
Rose leva Jack ao seu camarote, mostra a ele o colar que ganhou como presente de casamento de Cal, e pede que Jack a desenhe como uma de suas francesas, usando somente o diamante azul. E assim ele o faz. Porque ela está pagando – aqueles dez centavos de praxe.
A propósito, uma coisa interessante nesse roteiro que eu queria comentar, e não vou ter outra oportunidade: já falei que Rose é amante das artes, e ela aproveita também esta ocasião para mostrar a Jack algumas de suas aquisições – pinturas de Munier, e, como disse ao noivo lá no começo do filme, quadros de “Alguma Coisa” Picasso. Não sei se realmente Picasso não era um cara muito conhecido naquele tempo; sei que ele já tinha feito exposições importantes, mas, segundo Cal, ele não chegaria longe com um nome daqueles (se ele soubesse...), mas pelo menos os quadros do Sr. Picasso foram baratos. É possível que Cameron tenha feito uma brincadeira com a dificuldade de comunicação e divulgação daquela época, porque no começo do filme, ele também fez Rose mencionar Freud, e o Sr. Ismay pensou que ela estivesse falando de um passageiro.
Enfim, depois de retratar a moça fantasiada de Eva, com o “Coração do Oceano” no pescoço – com uma postura extremamente profissional, diga-se de passagem –, Jack guarda o colar no cofre, a pedido de Rose, enquanto ela escreve um bilhete para  noivo, que será deixado com o desenho ao lado da joia, assim ele poderá admirá-la apesar do pé na bunda.
Enquanto isso, lá fora, um dos Oficiais começa a se preocupar porque o mar está calmo demais, como se fosse um lago, sem nenhum sopro de vento. Assim fica mais difícil ver icebergs, sem a água quebrando nas bases. Mas Smith não está preocupado, e ordena que mantenham a velocidade e o curso.
Atualmente sabe-se que uma água extremamente calma como aquela encontrada pelo Titanic na fatídica noite de 14 de abril é um sinal da presença de icebergs por perto, porém, isso não era de conhecimento dos marinheiros na época.

De volta ao nosso casal favorito, Jack e Rose escutam passos, e fogem do camarote, deixando a pasta e os desenhos de Jack para trás.
Os dois correm pelo navio, descem até a sala das caldeiras, despistando Lovejoy, o cão de guarda de Cal, e conseguem entrar no porão de carga, onde fazem amor no banco de trás de um Renault novinho em folha.
Sentindo aquela coceirinha incômoda e muito suspeita em sua testa, Cal retorna ao camarote e dá uma espiada no cofre – será que ele pensou que encontraria Rose lá dentro? Encontra o diamante exatamente onde o guardou, e o desenho numa pasta de couro com o bilhete de Rose.
Claro que o playboy não gosta nadinha de saber que foi trocado por um pé rapado, e já começa a arquitetar um plano para separar o casalzinho.

Naturalmente, quando os seguranças chegam ao porão de carga encontram somente a marca deixada pela mão suada de Rose na janela do carro, mas os pombinhos já se escafederam. Os dois já estão lá no convés superior, planejando o que farão depois que o navio aportar em Nova York.
Eis que...
Os vigias tocam o sino de alarme, e telefonam para a cabine de comando para avisar sobre a emergência aos berros. Aí começa o desespero: o Primeiro Oficial William Murdoch manda virar à bombordo; os marinheiros correm para executar sua ordem, a todo vapor; as luzes de emergência são acesas; os registros das caldeiras são fechados; os motores são revertidos, mas a máquina demora para responder. Estima-se que o navio tenha demorado cerca de quarenta segundos para começar a virar. Quarenta segundos, a uma velocidade de 21,5 nós (41 km/h), com um iceberg diretamente em frente, tendo sido avistado já muito perto, significou a morte para o Titanic.
O navio colidiu com o iceberg no lado estibordo, arranhando o casco abaixo da linha d’água. Murdoch ordenou a virada para estibordo, a fim de mudar o curso da popa e evitar que o gelo danificasse toda a extensão do navio, e também ordenou o fechamento imediato das comportas estanques para tentar conter a água. Ao ser informado do ocorrido, o Capitão Smith ordenou que todas as máquinas fossem desligadas, e mandou chamar Thomas Andrews para investigar as avarias.

Lembram que eu falei de uma circunstância especial que impedia que o Titanic flutuasse até a chegada do socorro, como se fosse um bote salva-vidas gigante, conforme o projeto da Companhia? Então, quando projetaram o navio, a ideia dos engenheiros era que o Titanic pudesse continuar flutuando com quatro compartimentos inundados na proa. Mas quando o iceberg rasgou o casco, inundou cinco compartimentos. Aconteceu apenas o que não poderia ter acontecido. As bombas podiam retirar quatrocentas toneladas de água por hora, mas não era suficiente para conter a inundação no navio; no máximo elas serviriam para lhes dar algum tempo.
A partir daquele momento, várias providências começaram a ser tomadas para a evacuação do navio. Vemos no filme uma cena da sala das caldeiras, com as comportas se fechando e os carvoeiros e os mecânicos tentando abandonar rapidamente o local de trabalho e salvar suas vidas, mas na realidade pouquíssimos membros desta parte da tripulação sobreviveram, pois era necessário evacuar todo o vapor das caldeiras para evitar que entrassem em contato com água, o que poderia ocasionar uma explosão. Além disso, os eletricistas tiveram que permanecer em seus postos até o final, para garantir que as luzes se mantivessem acesas e o rádio funcionando pelo máximo de tempo possível, para que pedidos de socorro pudessem continuar a ser enviados.
Vemos também o Capitão Smith mandar o operador de rádio transmitir CQD – a sigla de socorro utilizada na época –, e avisar a quem responder que estão afundando pela proa e precisam de ajuda imediata, dando-lhe um pedaço de papel informando sua posição. Bem, no filme, foi Smith; na vida real, quem calculou a posição foi o Quarto Oficial Joseph Boxhall, como já mencionei anteriormente.
Os Oficiais da ponte começaram a preparar os botes, e a tripulação começou a acordar os passageiros para que colocassem os coletes salva-vidas e fossem para o convés superior. Ao menos coletes eles tinham de sobra, já que não havia botes para todos. Os passageiros da terceira classe, a mais imediatamente afetada pela colisão, começaram a seguir os ratos, imaginando que eles conheceriam o caminho mais seguro por instinto.

Enquanto isso, Jack e Rose voltaram para o camarote dela para avisar Ruth e Cal sobre o ocorrido, e encontraram o mauricinho dando piti, gritando aos quatro ventos que fora roubado, e exigindo que o camarote inteiro fosse fotografado.
Rose não acredita que Jack tenha roubado o colar, pois esteve com ele o tempo todo, mas Cal sugere que ele possa ter feito isso enquanto ela se vestia – sem o menor pudor em difamá-la na frente de todos. O caso é que o casaco de Jack tinha sido deixado num banco no convés superior por um passageiro da primeira classe, e Jack o pegou emprestado sem pedir – mas ele garante que ia devolver! –, e tinha o nome do dono bordado na parte de dentro, por isso Rose fica desnorteada, sem saber em quê acreditar. Jack é então levado pelo chefe da segurança, e um camareiro pede que, quando Cal terminar de esbofetear a moça e chamá-la de vagabunda, coloquem casacos quentes e um colete salva-vidas e se dirijam ao convés dos botes.
A propósito: Lei Maria da Penha mandou lembrança, Sr. Hockley!
Rose e Cal se juntam em seguida aos outros passageiros da primeira classe ao pé da Grande Escadaria, e a mocinha pede que Andrews seja honesto sobre a situação do navio. Ele confirma que o Titanic irá afundar em mais ou menos uma hora, e pede que ela conte a quem tem que contar, pois ele não quer ser responsável por pânico, e lembra a ela sobre a conversa que tiveram a respeito dos botes, pedindo que ela se ponha em segurança o mais rápido possível.
Um dos operadores de rádio avisa ao Capitão que o navio mais próximo a responder foi o RMS Carpathia, que estava a 93 km do Titanic, navegando em sua velocidade máxima, que é de 17 nós, podendo chegar em quatro horas. E será tarde demais.
Desolado, e um tanto catatônico, o Capitão Smith concorda com a sugestão do Segundo Oficial Charles Lightoller, de começar a embarcar as mulheres e as crianças nos botes. Na vida real, foi realmente Lightoller quem assumiu o comando dessa evacuação, pois ele já tinha passado por um naufrágio, e era talvez o Oficial mais preparado para emergências a bordo. Mas houve uma pequena falha na comunicação quanto a esta ordem, pois, enquanto o Primeiro Oficial Murdoch, que se encarregou dos botes do lado bombordo, interpretou a ordem do Capitão como sendo para embarcar mulheres e crianças primeiro, Lightoller, responsável por organizar os botes do lado estibordo, interpretou que era para embarcar mulheres e crianças apenas. Pelas fontes que verifiquei, o filme pode ter invertido o lado do navio em que cada Oficial atuou durante o naufrágio. O filme retratou Lightoller como extremamente rigoroso, e talvez até muito frio, mas a verdade é que talvez ele tenha sido um dos maiores heróis dessa história, uma vez que nenhum dos Oficiais a bordo tinha recebido o treinamento adequado para lidar com uma emergência desse porte, e que ele tomou a iniciativa de assumir as ações de evacuação e salvamento, diante da inanição do Capitão Smith. Ele também foi o Oficial mais sênior a sobreviver ao naufrágio, e muito sem querer querendo: o Segundo Oficial foi varrido do convés por uma onda, e jogado para cima do bote desmontável B, que estava emborcado; ele conseguiu subir em cima dele e depois foi resgatado por outro bote.
Enquanto os Oficiais vão preenchendo e baixando os botes, outros marinheiros começam a soltar fogos de artifício, que eram usados como sinalizadores no mar, para o caso de algum navio passar por perto, e perceber que precisavam de ajuda.
E na verdade havia um navio próximo ao Titanic naquela noite. Aliás, próximo o bastante para que suas luzes fossem vistas no horizonte. Cameron chegou a filmar uma cena que mostraria essa parte da história, mas acabou sendo cortada da edição final do filme. O SS Californian era um cargueiro britânico, que iniciou a travessia do Atlântico no dia 5 de abril, rumo a Boston, Massachusetts. Segundo relatos de Oficiais do Californian e de sobreviventes do Titanic, o cargueiro navegava algumas horas à frente na tarde de 14 de abril, e por volta das 19 horas, uma mensagem de rádio foi enviada do Californian para o Titanic, informando sobre os campos de gelo à frente. Esta mensagem foi entregue ao Capitão Smith. Com a noite já escura, o Californian adentrou acidentalmente uma região onde havia vários icebergs em volta, por isso se viram obrigados a desligar as máquinas e esperar amanhecer para prosseguir em segurança, com maior visibilidade dos blocos de gelo. Às 23:20, ao ver as luzes do Titanic se aproximando no horizonte, o Operador de Rádio do Californian emitiu outro aviso de gelo, só que nesse momento, por causa da proximidade com o Continente Americano, o Operador de Rádio do Titanic, Jack Phillips estava trabalhando na transmissão de inúmeras mensagens pessoais dos passageiros. Quando o aviso do Californian chegou, a proximidade entre os navios fez com que a mensagem literalmente gritasse no ouvido de Phillips, que mandou o Operador do Californian “calar a boca, pois ele estava ocupado”. Às 23:30 o Operador do Californian desligou o rádio e foi dormir – as regulamentações marítimas da época não exigiam que o rádio ficasse ligado vinte e quatro horas por dia, ainda mais com o navio parado. Dez minutos depois, o Titanic colidiu com o iceberg.
Vários sobreviventes afirmaram ter visto as luzes de outro navio no horizonte – a uma distância aproximada de dez a doze quilômetros –, mas desde que a tragédia aconteceu, ninguém mais se entendeu com as versões dessa história. Segundo depoimentos dos Oficiais do Californian, ao ver o outro navio disparar fogos de artifício, o Capitão foi acordado, e pediu que tentassem a comunicação através da Lâmpada Morse, para verificar o que estava acontecendo, mas não obtiveram resposta. Também não tinham certeza de que se tratava do Titanic. Tampouco explicaram porque não acordaram o Operador de Rádio para que tentasse descobrir o motivo dos sinais luminosos.  O rádio só voltou a ser operado na manhã seguinte, depois que o Carpathia entrou no horizonte, e foi quando descobriram que o Titanic havia colidido com um iceberg durante à noite e ido a pique.
Embora a tentação de responsabilizar o Californian pela omissão de socorro seja grande, é preciso ter em mente que eles estavam cercados por um enorme campo de gelo, e que a travessia para ir em socorro do Titanic, se tivesse sido feita, precisaria ser lenta e cuidadosa, para desviar dos icebergs no caminho. Não se sabe se eles seriam realmente capazes de se aproximar a tempo de salvar mais pessoas.
De qualquer modo, o Capitão Stanley Lord teve sua carreira e sua reputação destruídas por conta desse incidente. E três anos mais tarde, durante a Primeira Guerra Mundial, o Californian foi requisitado pela Marinha Real Britânica, para o transporte das tropas no Mar Mediterrâneo, acabou sendo bombardeado por um submarino alemão e afundou próximo à Grécia – curiosamente, ele afundou a menos de duzentas milhas do local onde um ano mais tarde o HMHS Britannic, navio irmão do Titanic também afundou. Mas isso não vem ao caso.

De volta ao nosso filme, Rose apressa sua mãe a embarcar logo num bote, mas a madame está preocupada se eles estão sendo preenchidos de acordo com as classes. Mas será que até na hora de morrer essas peruas conseguem manter o rei na barriga?
Falando em gente desagradável...
E com isso ele conseguiu ganhar mais um olhar feio, um elogio mental para sua santa mãezinha, e uma cuspida na cara – porque Rose é uma aluna de primeira! –, depois de tentar argumentar que se ficar com Jack, e se por algum milagre os dois conseguirem se salvar, ela será só a vadia de um pé rapado que recusou a vida de princesa que ele poderia lhe dar.
Então ela corre em socorro de Jack, que está algemado a um cano no escritório do mestre-de-armas, sendo ridicularizado pelo cão de guarda de Cal, Spicer Lovejoy.
Depois que o palhaço vai embora, Jack começa a gritar por socorro, pois a água já começa a invadir aquele piso, mas não há ninguém naquela área do navio para ouvi-lo. Rose pede instruções a Andrews para localizar o escritório do mestre-de-armas, determinada a encontrar Jack com ou sem ajuda, mas sem ajuda vai demorar mais. O ascensorista não está muito disposto a levar Rose para baixo, mas a essa altura do campeonato ela não está com tempo para delicadezas ou para continuar fingindo ser uma Lady.
Levá-la para baixo, ele até leva – por livre e espontâneo medo de que ela saque um alicate de cutícula do bolso –, agora esperar que ela resgate seu amado, enquanto a água invade o elevador, é outra história...

Seguindo as instruções de Andrews, Rose não demora a localizar Jack, mas a chave reserva da algema aparentemente tomou chá de sumiço.
Falou, Sr. Óbvio! Rose sobe um deck, e grita por ajuda. Um tripulante que vem passando tenta arrastá-la para cima, pouco interessado em ouvir o problema do homem que está algemado num cano, a minutos de morrer afogado, e ela somente consegue se livrar dele lhe dando um soco no nariz, ao perceber que ele não quer nem soltá-la, nem ajudá-la. Daí, claro que ele a manda para o inferno. E para piorar, as luzes começam a oscilar, deixando-a momentaneamente no escuro.
Mas quando a luz se restabelece, ela vê um machado lacrado num vidro, quebra-o com a mangueira de incêndio, e retorna à sala de segurança para libertar Jack. E a água está subindo bem depressa, porque quase não dá pé para ela perto das escadas. Felizmente, a sala onde Jack está algemado fica mais próxima da popa, então o nível da água ali ainda está na cintura de Rose.
Acho que não existem muitas provas de confiança maiores do que essa: permitir que uma pessoa claramente sem pontaria separe suas algemas, enquanto bate os dentes por estar em contato com a água quase congelada. Mas como a outra opção era morrer afogado, Jack não estava realmente em condições de negociar.
Claro que tudo dá certo, e ela bate certinho na corrente das algemas, partindo-a e libertando seu amado. Agora eles só precisam subir para o convés superior e torcer para ainda ter vaga nos botes.
Agora você vê... O navio afundando e o cara preocupado em comer o rabo dos vândalos...

Enquanto o casal tenta salvar a própria pele, Andrews tenta salvar quantos puder. Ele repreende Lightoller por estar baixando os botes sem a lotação completa, ao que o Oficial responde que não tinha certeza sobre o peso que os barcos podiam suportar sem afundar.
Essa parte é verdade: nenhum dos Oficiais e marinheiros a bordo sabiam a capacidade exata dos barcos; além disso, embora muito se fale a respeito da quantidade insuficiente de botes no Titanic, a falta de preparo, conhecimento e organização da tripulação sobre como preenchê-los e lançá-los adequadamente, poderia ter tornado a presença de botes adicionais irrelevantes no naufrágio. Apesar da bronca do engenheiro, os Oficiais não tinham muita culpa nesse caso.

Cal juntou seus trocadinhos – o que neste caso significa alguns milhares de dólares –, enquanto Lovejoy procurava Rose pelo navio.
Falou a língua dele, né, querido! Enquanto Cal vai lá subornar o Primeiro Oficial Murdoch em troca de uma passagem no bote mais próximo, o pessoal da terceira classe está lutando contra as grades trancadas por membros da tripulação para evitar que a gentalha faça tumulto no convés. Alguns até deixam mulheres e crianças passarem, mas simplesmente batem o portão na cara dos homens que tentam se salvar. Então Jack reúne a rapaziada, arrancam um banco de madeira no corredor, e Rose abre espaço na multidão para que eles possam usar o banco como aríete e arrombar o portão.
A situação no convés principal é bem crítica nesse momento. Os barcos estão acabando, e as pessoas começam a pular nos últimos botes que estão sendo baixados, tentando se salvar a qualquer custo. Apesar disso, os músicos permanecem tocando, para tentar confortar aqueles que claramente não conseguirão embarcar nos botes.
E alguém ainda se atreve a reclamar desse filme?! O cara prestes a morrer afogado ou congelado – não sei o que é pior –, e ainda consegue encontrar espírito para fazer piada!

Falando em piadinha, Lovejoy vai lá fofocar pro Cal, que acaba de subornar Murdoch em troca de um assento no bote que ele está preenchendo, que viu Rose correndo pelo convés, e o playboy desiste de embarcar para ir lá tomá-la de volta; e dane-se o resto. Quando ele vira as costas, o Sr. Ismay se enfia de fininho no bote. E como o cara é o presidente da Companhia, e de mais a mais, Cal já pagou por aquele assento, Murdoch faz vista grossa.
Num momento de suposto estoicismo, Cal coloca seu casaco em Rose, e a convence a embarcar num bote, garantindo que fez um trato com o Oficial do outro lado para que ele e Jack embarquem no próximo. Mas Rose, que não é boba nem nada, e conhece aquela raposa de outros carnavais – afinal, ela ia se casar com ele –, percebe pelo olhar de despedida de Jack que seu ex-noivo mentiu, e que ele jamais incluiria o artista no trato. O romance poderia ter terminado ali: ela se salvando, e ele ficando para trás para morrer no naufrágio, mas isso não seria romântico; tampouco serviria ao propósito do filme de mostrar a agonia dos passageiros até os momentos finais, através do nosso simpático casal. Então, em outra das cenas mais memoráveis do filme, Rose pula de volta para o navio, disposta a permanecer com Jack até o fim.
Despeitado, Cal rouba a arma de Lovejoy e atira na direção do casal, forçando-os a descer alguns níveis, até o salão de jantar parcialmente inundado. E de repente ele se dá conta de sua própria estupidez.
Essas próximas cenas serviram mais para dar um pouco de ação e emoção aos momentos finais do navio, do que de fato para o bom andamento do roteiro. Mas, de certo modo, também serviram para mostrar o desespero de alguns passageiros que ainda estavam nas entranhas parcialmente inundadas do Titanic, quando já quase não restavam botes salva-vidas.
Jack e Rose se esconderam numa das escadas que davam acesso ao piso inferior, inundado, e encontraram um menino perdido no corredor. Jack o pegou e tentaram salvá-lo, mas o pai do menino – ao que tudo indica, um estrangeiro – não percebeu a intenção do casal, tomou-o de volta, e correu com ele para a saída mais próxima, sem saber que era precisamente o lado por onde a água estava entrando. O casal tenta escapar da fúria da água, mas acabam arrastados pela correnteza até um portão trancado. Com esforço, eles conseguem se arrastar de volta à escada, mas batem em outra barreira trancada.

Estão se perguntando por que diabos alguém andou trancando os portões com o navio afundando? Quando o mais lógico seria deixar todas as passagens abertas, para que as pessoas pudessem sair sem obstáculo. Estão lembrados de que os homens da terceira classe tiveram que arrombar um portão porque os tripulantes não queriam deixá-los passar? Desde o naufrágio, há rumores de que certos tripulantes do Titanic teriam trancado as barreiras que separavam a terceira classe das acomodações da primeira e segunda classes, para impedir que essas pessoas corressem para os botes. Felizmente para o nosso casal fictício, um comissário que vinha passando não estava muito preocupado em saber a qual classe de passageiros eles pertenciam, e, com as mãos trêmulas, tentou destrancar o portão, mas desistiu quando as chaves caíram na água, decidindo salvar a própria vida. Coube a Jack mergulhar, recuperar a chave, e destrancar o portão às cegas, para que pudessem retornar ao convés superior.
No convés o caos é total. Muitos homens se espremem, tentando embarcar num dos últimos botes, inclusive Cal, mas agora Murdoch só está permitindo a passagem de mulheres e crianças. Diante da confusão que se instaura ao redor, o Oficial puxa um revólver para tentar conter os homens, e acaba baleando dois deles, incluindo Tommy, o amigo irlandês que Jack conheceu no navio. Em seguida, reconhecendo que passou dos limites, e que nem todo o dinheiro que alguns estão oferecendo – leia-se Cal – poderá salvar qualquer um deles, o Oficial Murdoch bate continência pela última vez antes de atirar na própria cabeça, e despencar do navio.
Embora exista a lenda de que um dos Oficiais – nome jamais mencionado – teria cometido suicídio com o revólver que recebeu para conter a invasão dos passageiros em seus botes, a maioria dos historiadores desmente a veracidade dessa história. Essa cena também foi duramente criticada pelos familiares de Murdoch, pois a liberdade artística de James Cameron danificava a reputação heroica do Primeiro Oficial. O diretor se desculpou em seu comentário em áudio, porém afirmou que muitos Oficiais dispararam armas para manter a política do “mulheres e crianças primeiro”.

Sem outro recurso para garantir sua salvação, e sem tempo para continuar curtindo sua dor de cotovelo, Cal pega uma menina da terceira classe que encontrou chorando próxima da área dos botes, e mente ao Oficial que ele é tudo o que ela tem, conseguindo assim permissão para embarcar.
O que não faz o desespero, não é mesmo? Em circunstâncias normais, um sujeito arrogante como ele nunca tocaria numa criança tão mal vestida. Como acreditaram que ela tinha qualquer parentesco ou ligação com um sujeito de smoking, é um mistério...
Ao menos ele fez uma boa ação em sua vida. Ainda que tenha sido só para salvar o próprio rabo...
Enfim, Andrews é visto pela última vez diante de um relógio sobre o console da lareira da sala de fumar da primeira classe, quando pede perdão a Rose por não ter construído um navio mais forte, e dá um colete salva-vidas para ela. O engenheiro sequer tentou se salvar. Não se sabe como o verdadeiro Thomas Andrews morreu.

Outro que sequer tentou se salvar – pelo menos no filme – foi Benjamin Guggenheim, que foi mostrado perto da Grande Escadaria da primeira classe, vestido com seus melhores trajes e pronto para afundar como um cavalheiro.
Apesar da pouca participação, ele foi um dos personagens mais carismáticos do filme.

A essa altura, o Capitão Smith também não dá mais atenção a ninguém. Agora é cada homem por si. Como todo bom capitão da velha guarda, que sempre afunda com seu navio, Smith é visto entrando na cabine do leme, onde se afoga quando a água estoura os vidros, nos momentos finais do naufrágio. Embora, na realidade, não se saiba se ele morreu dessa forma, ou se ele congelou até a morte, pois relatos dão conta de que ele foi visto próximo ao Bote Desmontável B.
Os músicos, que até então tocavam ininterruptamente no convés superior, se despedem, desejando boa sorte uns aos outros, mas quando o líder da orquestra, o violinista Wallace Hartley decide permanecer no convés, e tocar sua última canção, os outros também voltam para acompanhá-lo. O filme mostra a orquestra tocando o hino evangélico da Harpa Cristã “Nearer, My God, to Thee” (em português “Mais Perto Eu Quero Estar”), mas existem divergências sobre esta ter sido realmente a última música executada pelo grupo, ou se foi a valsa “Autunn”. Aparentemente eles tinham razão, e ninguém estava realmente escutando. Nenhum deles sobreviveu ao naufrágio. E o maior de todos os desaforos: como eles eram terceirizados, e seus uniformes eram fornecidos pela empresa de quem eram contratados, mais tarde suas famílias ainda receberam uma conta da firma pelos uniformes perdidos.
Ao pressentir que o fim está próximo, Andrews para o pequeno relógio sobre o console da lareira, para que se registre a hora do fim.
Nos momentos finais, vemos uma sequência de flashes com os desfechos de diferentes personagens: vemos um casal de idosos abraçados na cama, enquanto a água sobe – eles são personagens reais, o ex-congressista de Nova York Isidor Straus e sua esposa Ida; ela recebeu a oferta para embarcar num bote, mas recusou, decidindo honrar seus votos de casamento e permanecer ao lado do marido. Vemos uma mãe da terceira classe contando uma história de ninar aos dois filhos num beliche, para que durmam antes de se afogar. Vemos também as obras de arte submersas nos camarotes da primeira classe, insinuando que frente à morte, muitos foram obrigados a deixar seus tesouros para trás para se salvar. E a cena mais dolorosa: vemos Fabrízio, o simpático amigo italiano de Jack sendo esmagado pela queda de uma chaminé.

Com o navio já muito inclinado, os Oficiais encontram dificuldade para lançar os últimos botes, sendo obrigados a cortar algumas amarras. As pessoas começam a correr para a popa elevada, se segurando no que encontram pela frente, enquanto outros pulam do navio. 
Esse Jack é uma figura...

Com muita dificuldade, eles conseguem chegar à popa do Titanic, e Rose se dá conta de que foi ali que eles se conheceram.
Sabem o cara que está enchendo a cara de uísque na popa, pertinho de Jack e Rose, enquanto o navio inclina até o limite?
O nome dele é Charles Joughin, o padeiro chefe do Titanic. Ele foi um dos cinco sobreviventes resgatados pelo bote do Quinto Oficial Harold Lowe, o único que voltou para procurar sobreviventes depois que o Titanic afundou. Mais tarde, Joughin afirmaria ter saído do navio quando a popa afundou sem molhar o cabelo, e admitiu não ter sentido muito frio, provavelmente por causa do álcool que estava bebendo. Então, meus amigos, se for dirigir não beba! Agora, se seu navio estiver afundando num mar congelado, aí sim, pode enfiar o pé na jaca, e beber o quanto aguentar. Só coloca o colete salva-vidas primeiro, tá?!
Nos momentos finais do naufrágio, enquanto a popa se ergue como o traseiro de uma periguete que foi apanhar um lápis no chão, Ruth DeWitt Bukater observa, com lágrimas nos olhos, consciente de que sua filha ainda está a bordo, sem saber sequer se ela ainda está viva. Aposto que agora ela se arrepende de ter colocado seus interesses à frente da felicidade dela.
Várias mulheres choram nos botes, antecipando a perda de seus entes queridos. Ismay não suporta continuar assistindo ao destino de seu navio, e vira de costas, claramente lamentando. O verdadeiro Ismay foi duramente criticado por ter salvo sua vida quando tantas pessoas morreram. Para início de conversa, foi ele quem rejeitou a sugestão dos engenheiros de colocar mais botes no Titanic, para não diminuir o espaço naquele convés, nem pôr em dúvida a confiabilidade do público na empresa. Mas é preciso também comentar que, no início da evacuação do navio, quando as pessoas ainda resistiam a embarcar nos botes, por não acreditarem na gravidade da situação, Ismay correu todo o convés do Titanic persuadindo tantos quantos pudesse a embarcar nos botes sem perda de tempo. Não que isso diminua sua responsabilidade no caso...
As luzes do Titanic finalmente se apagam. Os eletricistas trabalharam até o final para manter o navio iluminado pelo maior tempo possível, e nenhum deles sobreviveu ao naufrágio. Agora, na mais completa escuridão, o navio range e se parte ao meio. A popa desce, nivelando momentaneamente com a água. Mais duas chaminés tombam, esmagando outras pessoas. Finalmente a proa afunda completamente, levantando a popa uma vez mais, fazendo várias pessoas escorregarem para a morte.
Percebendo que sua posição não é favorável, Jack sobe na amurada e ajuda Rose a fazer o mesmo. Os dois se apoiam na balaustrada do convés de popa, de onde Rose pensara em se atirar algumas noites antes, mas agora lutando para sobreviver. O navio inicia seu mergulho final, enquanto Jack orienta Rose a respirar fundo; o navio os tragará para baixo, e eles devem nadar para cima, evitando a sucção.
Na prática, foi mais fácil para Rose se manter perto da superfície, uma vez que ela estava usando um colete salva-vidas, enquanto Jack foi tragado mais para o fundo, e acabou se separando momentaneamente da moça.
Quando ela emerge, as pessoas estão se debatendo desesperadas, tentando afogar umas às outras por seus coletes. Jack precisa esmurrar um sujeito que está tentando afogar Rose, e a puxa para longe dos outros náufragos, até uma placa de madeira da decoração do navio que ficou flutuando depois que este afundou. Mas a placa só suporta o peso de Rose, forçando Jack a permanecer na água geladíssima. Apesar de estar tremendo de frio, Jack garante a Rose que os botes foram para longe por causa da sucção, mas já virão resgatá-los.

Porém uma discussão no bote número seis revela que eles não tinham intenção de voltar, pois sabem que as pessoas desesperadas virarão os botes ao tentar embarcar. Molly Brown instiga as mulheres em seu barco a remar para ajudar as pessoas que estão morrendo congeladas, afinal, seus homens estão entre elas, mas elas se acovardam, preferindo a própria sobrevivência.
Embora no filme Cameron tenha escolhido não retratar suas ações da vida real, sabe-se que Molly, com a ajuda de outras mulheres, conseguiram tomar o comando do bote do Contramestre Robert Hichens.
Mas pelo menos a confusão no bote de Molly serviu para incitar o Quinto Oficial Lowe a transferir as mulheres de seu barco para os outros, para que ao menos um bote pudesse voltar e procurar sobreviventes.

Enquanto isso, Jack diz a Rose que pretende escrever uma carta bem mal-criada à White Star Line para reclamar sobre o acidente. E quando ela tenta se despedir, acreditando que não suportará o frio, ele garante que ela ainda vai viver muitos anos, ter muitos filhos, e que só morrerá quando estiver bem velhinha, e deitada numa cama quente; não ali, daquele jeito.
Porque Jack prestou atenção no começo do filme, e sabe que, se Rose é quem está narrando a história, é porque ela conseguiu sair dessa enrascada.
O barco de Lowe finalmente retorna ao local do naufrágio, à procura de sobreviventes, mas só encontra cadáveres congelados. O bote avança com cuidado, para não bater nos mortos, mas Lowe percebe, resignado, que esperaram demais para vir em socorro dos caíram no mar.
Rose canta baixinho sua música de ninar favorita, fitando as estrelas no céu enevoado. De repente ela vê a luz da lanterna e o bote se aproximando, e tenta avisar Jack, mas ele já está morto. Por um instante, ela pensa em deixar o barco ir embora, e se deixar morrer com seu amado, mas então ela se lembra da promessa que fizera – afinal, Jack morreu para que ela pudesse ter uma chance em cima daquela porta, fora da água congelante –, e decide honrar seu sacrifício. O problema é que ela não tem voz para chamar o barco de volta.
Rose se despede silenciosamente de seu amado, e desprende as mãos dele que congelaram sobre a placa de madeira, deixando-o afundar. E por mais que a cena seja linda e comovente, é de uma incoerência gritante: Jack morreu congelado; o corpo humano é formado por 70% de água, ou seja, ele se transformou numa pedra de gelo humana, e todo mundo sabe que gelo não afunda!

Seja lá como for, Rose volta para a água, e começa a nadar, a fim de alcançar o Oficial Chefe Henry Wilde, que congelou ali perto dela, e começa a soprar seu apito com força, chamando a atenção do bote de resgate, que ilumina o rosto dela e regressa para buscá-la.
A propósito, não se sabe como foi que o verdadeiro Wilde morreu.
Mil e quinhentas pessoas caíram no mar quando o Titanic afundou embaixo deles. Eram vinte barcos por perto, e só um voltou. Seis pessoas foram salvas, inclusive Rose – na vida real, como Rose não estava lá, foram apenas cinco. Depois disso, as setecentas pessoas nos botes tiveram que esperar para viver ou para morrer, e por uma absolvição que jamais viria.
Os sobreviventes começaram a ser resgatados pelo Carpathia a partir das quatro horas da manhã do dia 15 de abril. O navio tinha corrido a noite toda em máxima velocidade, tendo que desviar de vários icebergs no caminho.
O Carpathia retornou à Nova York para desembarcar os sobreviventes, onde eles receberiam os devidos cuidados, atracando lá três dias depois. Durante esse retorno, vemos Rose escondendo o rosto sob um cobertor, para evitar ser reconhecida por Cal, que procura conhecidos no convés. Aquela foi a última vez que o viu. Pelo que ela soube, ele se casou e herdou seus milhões, mas a queda da Bolsa de Valores em 1929 afetou irremediavelmente sua fortuna, e ela soube pelos jornais que ele deu um tiro na boca.
Na chegada a Nova York, Rose mentiu seu nome ao Oficial que estava listando os sobreviventes do Titanic antes do desembarque, passando a se chamar dali por diante Rose Dawson. Até aquele momento, ela não havia falado sobre Jack com ninguém, nem mesmo com seu marido, pois o artista fazia parte do oceano de segredos que ela guardava no coração. Jack a salvou de todas as maneiras que uma pessoa pode ser salva, e ela nem tem um retrato dele. Ele existe somente em sua memória.
Depois de ouvir o relato de Rose, Lovett confessa à Lizzy que pensou apenas no Titanic nos últimos três anos, enquanto procurava o diamante naufragado, mas nunca tinha entendido o que aquele naufrágio realmente significara, e nunca tinha se emocionado com aquela tragédia. Até agora.
Eu disse lá no começo da review que James Cameron se colocou dentro do filme na pele desse caçador de tesouros, que nunca havia compreendido o lado humano do naufrágio do Titanic, e essa cena deixa bem claro sua mudança de postura – para Lovett, foi após ouvir o relato de uma sobrevivente; para Cameron, foi ao ter contato com os destroços do navio no fundo do oceano, o luxuoso túmulo submerso de centenas de pessoas.
O naufrágio do Titanic foi tão devastador que, provavelmente, sobreviver a ele pode ter sido tão trágico quanto morrer nele. Pensem só na quantidade de mulheres que perderam seus maridos naquele episódio – lembre-se que estamos falando de uma época em que o homem era o ÚNICO provedor da família. Essas mulheres – não importa se eram pobres ou ricas –, ficaram sozinhas, talvez tendo dois ou três filhos para criar. Talvez algumas delas tivesse família; e talvez suas famílias tenham ficado do outro lado do oceano, na Europa. Você se arriscaria a embarcar em outro navio logo em seguida?
Foi o que pensei...
Havia pelo menos dez casais em lua de mel a bordo do Titanic, e provavelmente os maridos dessas mulheres não tiveram permissão para embarcar nos botes. Imagine essas mulheres, recém-casadas, e já viúvas. E é possível que, dentre elas, ao menos uma tenha acertado um gol de placa e ficado com o “pãozinho no forno”, uma descoberta que deve tê-la deixado feliz, e, ao mesmo tempo, preocupada com o futuro que poderia dar a essa criança, agora que estava sozinha. Mães que perderam filhos; crianças que cresceram sem pai; crianças que podem ter sido salvas por alguma alma caridosa da primeira ou segunda classe, sem que seus pais tenham tido a mesma sorte. A alma caridosa que as colocou num bote não necessariamente as adotou – isso não é novela mexicana. Elas provavelmente foram deixadas na entidade equivalente ao Conselho Tutelar da época, até que algum parente as reclamasse, o que pode nunca ter acontecido.
Como terá sido a vida dessas pessoas? Tendo que superar os traumas daquela tragédia, a perda de entes queridos, e o fato de terem visto tantas pessoas morrendo de uma maneira terrível, sem poder fazer nada a respeito; as horas angustiantes que passaram à deriva nos botes, em meio ao Atlântico Norte, à espera de resgate... Setecentas e dez pessoas sobreviveram ao naufrágio, mas tiveram que viver com as lembranças e os horrores dessa tragédia pelo resto de suas vidas.
Cameron penetrou no coração da tragédia, e retratou isso com perfeição, mostrando em sua Rose a figura de uma pessoa que sobreviveu à tragédia, que refez sua vida, que viveu oitenta e quatro anos depois do naufrágio, mas que deixou o coração sepultado no navio desde então, junto com o homem que ela amava, e que não conseguiu sobreviver. Ninguém havia se preocupado em retratar essa parte da tragédia – o lado humano – do Titanic até então.

Finalmente vemos a idosa Rose caminhar até a popa do barco de pesquisa, e subir nas grades amurada, como fizera mais de oitenta anos atrás na popa do Titanic, mas desta vez, ela não pensa em se atirar para a morte. Rose olha para o mar e segura o diamante azul que encontrara no bolso do casaco de Cal quando chegaram a Nova York. Rose nunca foi apegada àquela pedra, mas vendê-lo significaria viver do dinheiro de Cal, e foi exatamente disso que ela fugiu. Agora, mais de oitenta anos depois, ela finalmente dá ao diamante o destino que deveria ter tido desde o princípio: o fundo do oceano.
Então temos uma nova imagem da cabine ocupada por Rose no barco de pesquisa, e as fotos em sua cabeceira mostram que ela levou a vida que Jack a inspirou a ter: andou de montanha-russa no princípio do século, montou a cavalo como um homem, voou de avião quando isso ainda era privilégio dos ricos, famosos e pilotos de caça da Segunda Guerra Mundial, foi uma atriz glamorosa...
E vemos a profecia de Jack se cumprir, com Rose bem velhinha, deitada na cama quentinha da cabine do barco de pesquisa. Cameron afirmou nos comentários em áudio que deixou a cena aberta à interpretações: se Rose morreu enquanto dormia, ou se ela está simplesmente sonhando, depois de reviver suas memórias daquela inesquecível viagem.

Porque a última cena do filme é para desidratar até os corações mais endurecidos: vemos o Titanic restaurado no fundo do mar, voltando à antiga glória de quando partiu em sua viagem inaugural. A jovem Rose corre pelos corredores até a Grande Escadaria da primeira classe, onde é recebida com alegria por todos os mortos no naufrágio, e reencontra Jack diante do relógio, onde o beija apaixonadamente, sob os aplausos de todos, como se aquele fosse o seu casamento.
Gosto de pensar que nesse final o espírito de Rose se reuniu ao de Jack, exatamente onde seu coração ficou em sua juventude, tantos anos atrás.

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