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sexta-feira, 9 de março de 2018

[As Noivas de Robert Griplen] Capítulo 7 - Uma Noite de Paixão e Morte

A lua cheia ascendia no céu quando o barco de Robert ancorou na ilha Griplen. Como para cumprir o que ele havia dito à Lucy, não se via uma única estrela no céu naquela noite. Mas a lua estava manchada de sangue, o que somado ao corvo que caiu morto aos seus pés, só podia significar que algo terrível estava a caminho.
Levado pelo instinto, Robert deu a volta por trás da mansão, e se esgueirou silenciosamente até a porta do galpão. As janelas daquela construção ficavam altas demais para que qualquer pessoa pudesse espiar através delas, mas deixavam escapar uma luz baixa e fraca que certamente vinha das velas acesas. Deduzindo que o pai ainda podia estar lá dentro, Robert caminhou até a porta, e muito calmamente, abriu uma fresta para espiar lá dentro, cuidando não fazer nenhum ruído.
Como havia percebido antes mesmo de se aproximar, as velas simetricamente espalhadas pelo galpão estavam acesas. Havia um círculo de cal desenhado bem no meio do salão, e dentro dele, desenhados com terra, os vinte e quatro símbolos rúnicos: uma das últimas conexões com seus ancestrais. Acompanhando o contorno do círculo, também pelo lado de dentro, jaziam doze carcaças sanguinolentas de doze corvos mortos. O corvo, em sua comunidade mística era reconhecido como o espectro da morte, um arauto que vinha à sua frente para escolher a alma a ser levada por ela. Quando um corvo era usado em um ritual, a intenção não podia ser outra, senão invocar a morte.

Robert estava horrorizado. George Griplen ainda estava no centro do círculo, vestido com o manto negro. Tinha numa das mãos uma agulha longa, embebida em sangue – o sangue dos doze corvos mortos –, e na outra, uma boneca de vodu, vestida com o lenço de cetim branco de Lucy; um lenço que ele não podia ter surrupiado de outro lugar, senão do quarto de Robert.
George, sem perceber a presença do filho na porta, começou a murmurar palavras de maldição numa língua que Robert fora obrigado a aprender desde menino – a língua de seus ancestrais da Velha Ordem; uma língua que para o resto do mundo está morta há séculos, mas que sua família e os poucos remanescentes de sua comunidade mantinham viva somente para a prática de seus rituais.
Robert ouviu muito superficialmente as palavras que seu pai murmurava, mas o bastante para compreender o que ele fazia. Infelizmente, não conseguiu invadir o galpão a tempo de impedir que ele atravessasse o ventre da boneca com a agulha amaldiçoada.
George ainda murmurava a maldição quando Robert empurrou a porta, correu para dentro do salão e lhe arrancou das mãos a boneca mutilada, para retirar a agulha de seu ventre. O sangue pingava no chão, na beira do círculo, e Robert começou a murmurar um contrafeitiço, para tentar anular a maldição de seu pai; no entanto, antes que terminasse, as velas ao redor do altar profano foram apagadas por um sopro espectral.
– Está feito! – declarou George Griplen, com um sorriso sádico e satisfeito, enquanto despia o capuz do manto negro. – Aquela infeliz nunca conceberá um filho seu, ou de qualquer outro. Ventre seco! Esta será a punição por sua teimosia, Robert.
O coração de Robert encheu-se de ódio naquele instante, a ponto de o veneno lhe escapar pelos poros como suor. Seus olhos se cobriram de sangue, conforme permitia que o ódio crescesse em seu interior, e corresse como fogo por suas veias.
– E a sua punição será arder no inferno! – amaldiçoou Robert, antes de virar as costas e sair pisando duro do templo pagão.
Por todo o caminho enquanto contornava a casa, dirigindo-se de volta ao pequeno cais na margem da ilha, Robert murmurava na língua de seus ancestrais. O fogo em suas veias agora superaquecia o ar ao seu redor, e deixava uma trilha de areia queimada demarcando seus passos. Agnes Griplen correu para a soleira ao sentir o ar pesado e sufocante que agora envolvia a mansão, e viu, horrorizada, a intensidade do sangue que inflamava os olhos de seu filho, enquanto ele invocava, enfurecidamente, uma maldição para vingar-se do pai.
– Robert, pare! – gritou Agnes, tentando detê-lo; mas foi inútil.
A voz de Robert se elevava gradualmente, acompanhada pelos uivos sombrios do vento que começava a agitar as árvores ao redor da ilha. Uma nuvem negra começou a se formar rapidamente no céu, encobrindo a lua, que naquele momento estava completamente velada de sangue. Os trovões logo se uniram ao vento e à voz escura de Robert, orquestrando uma melodia infernal.
Agnes Griplen continuava gritando, da soleira, tentando conseguir a atenção do filho. O ar pesado e a força do vento não permitiam que ela se deslocasse para muito além da porta, e Robert obviamente não a ouvia. O cachorro também latia desenfreadamente ao lado dela na soleira, como se suplicasse, assim como sua dona, que Robert parasse o que estava fazendo.
Ele, porém, prosseguiu invocando o caos, canalizando toda a sua fúria, indignação, asco e desonra contra seu genitor, enquanto andava com passos firmes, decididos e mortais por todo o caminho.
Subitamente, ele parou, muitos metros à frente das portas da mansão, e num impulso de ódio final, cravou na areia a agulha embebida no sangue mortal dos doze corvos que o pai utilizara para esterilizar sua futura esposa, sem se dar conta de que aquele era precisamente o coração da ilha.
Então ele retornou ao barco. Guardou o lenço de Lucy em seu bolso e jogou a boneca de vodu de qualquer jeito sobre a coberta, fazendo-a desaparecer de sua vista. Em seguida, remou vigorosamente para o continente, deixando para trás a tempestade rugindo em torno da casa de sua família, sem ao menos pensar nas consequências de seu ato.
Com sangue ainda nos olhos, e uma fúria mortal no coração, Robert atravessou as ruas de Salem sem olhar para qualquer pessoa no caminho, até chegar à fazenda dos Croft. Tendo a escuridão como esconderijo, ele subiu pelas trepadeiras, até a janela de Lucy. Ela já estava deitada, aninhada num cobertor de zibelina prateada. Ver a amada ali, tão serena, fez a fúria no coração de Robert ser imediatamente acalentada.
A exemplo dos amantes venezianos, que visavam proteger sua identidade em noites promíscuas, ele tinha coberto o rosto com uma máscara antes de escalar a janela de sua noiva. Não era a primeira vez que Robert aparecia para ela usando aquele acessório. Também não era a primeira vez que entrava por sua janela no meio da noite. Provavelmente era um risco desnecessário, sobretudo à véspera de seu casamento, que se descoberto poderia comprometer seriamente a honra de sua amada, mas naquela noite principalmente, Robert não conseguia pensar em mais nada. Apenas precisava estar com Lucy; sem se importar com as consequências.
Lucy ergueu a cabeça, e suspirou sonolenta, ao ouvir o ruído do noivo entrando por sua janela.
– O que está fazendo aqui? – perguntou ela, num sussurro carinhoso, quando ele se aproximava da cama.
Robert apenas sibilou para que ela se calasse, e sussurrou em seu ouvido:
– Eu te amo!
O sopro de seu hálito quente fez a pele de Lucy se arrepiar. Ele despiu a máscara, e então ela permitiu que ele a tomasse em seus braços, acomodando-se com ela embaixo das cobertas.
– Se alguém perceber que você está aqui, estou perdida – sibilou Lucy.
Mas Robert não parecia escutá-la. Estendendo seu corpo sobre o dela, sibilou novamente para que se calasse, e encontrou os lábios dela com os seus.
– Você é minha para sempre – sussurrou ele em seu ouvido, após um minuto, com a voz suave e aveludada. – Não importa o que aconteça...
E tornou a beijá-la, mantendo-a ternamente em seus braços. Agora a fúria que o impulsionara a invocar o caos sobre a ilha de sua família se convertera em um desejo irresistível e indomável, tão poderoso e avassalador quanto o sentimento anterior. Lucy o recebeu sem hesitar, o desejo dela ardendo quase tão intensamente quanto o dele. Talvez porque naquele momento ele a colocava sob seu feitiço, manipulando-a para que não resistisse às suas carícias; ou talvez o encanto viesse justamente do amor dela, esse amor que ela lhe entregava voluntariamente, e que transformava todo ódio que havia nele em ternura e paixão.
Naturalmente, ela não sabia quanta fúria ele havia invocado naquela noite, antes de entrar sorrateiramente em seu quarto, e amá-la tão apaixonadamente. Mas estar nos braços dele fazia com que Lucy ansiasse mais desesperadamente pelo dia seguinte, quando esse amor deixaria de ser uma transgressão moral, que precisava ser desfrutado furtivamente na calada da noite, e seria finalmente sacramentado e abençoado para sempre; o momento sublime em que ele a tomaria em seus braços como sua esposa.
Robert a manteve aninhada em seu peito por um longo tempo, cantarolando suavemente em seu ouvido, até que ela voltou a adormecer. Então ele se arrastou para fora da cama, sem perturbá-la. Um estranho pressentimento lhe assombrava, misturado à lembrança inconveniente do ritual que o pai realizara naquela noite. Como por instinto, Robert puxou um canivete do bolso, e riscou um símbolo rúnico na porta do quarto de Lucy, enquanto murmurava muito baixinho um encantamento para mantê-la protegida.
E então, como um amante satisfeito, tornou a cobrir o rosto com a máscara veneziana, e desceu pela janela do quarto.
Como a lua permanecia encoberta pelas nuvens, ele não era mais do que um fantasma vagando pela noite escura de Salem, ao afastar-se da casa de sua noiva e retornar ao cais.
A tempestade rugia ainda mais furiosamente ao redor da ilha quando ele entrou pelas portas da mansão Griplen, pouco antes da meia-noite. Teve o impulso de gravar o mesmo símbolo na porta da frente, e também na de seu quarto, e do quarto de Emily. Talvez ele estivesse ficando paranoico, tentando proteger a si mesmo e às pessoas que amava do homem que lhe deu a vida, mas ele sabia que a obstinação de George Griplen era mortal. E como um inconsequente, Robert usara a mesma morte que o pai invocara contra ele e sua noiva para feri-lo, onde quer que lhe doesse, sem ao menos se perguntar aonde isso os levaria.
A maldição que ele invocara, usando os restos do ritual de seu pai no sangue dos corvos mortos, se consumaria naquela mesma noite, para libertá-lo, ou para arruiná-lo.
A runa gravada nas portas impediria que a morte entrasse. Mas seu destino estava muito além disso...

À meia-noite a tempestade começou a cair; à meia noite a ilha Griplen começou a morrer.


Livro completo à venda em e-book na Saraiva, e impresso no Clube dos Autores.

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