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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Era Uma Vez... Dos Vilões Contarem Suas Histórias


Toda história tem muitos lados, muitas facetas; essa é uma premissa tão antiga quanto verdadeira. Foi pensando nisso que a editora Galera Record resolveu publicar novos contos de fadas, com outras versões de histórias que conhecemos desde os primórdios de nossas vidas.
Se por um lado O Livro das Princesas não trouxe grandes novidades, O Livro dos Vilões é um prato cheio para quem gosta de conhecer novas óticas dos contos de fadas, e lança novas luzes sobre personagens tão conhecidos e indesejáveis nos contos.



O Livro dos Vilões
Autores: Cecily von Ziegesar, Carina Rissi, Diana Peterfreund, Fábio Yabu
Editora: Galera Record
Páginas: 320
Gênero: Contos de Fadas | Jovem Adulto
Sinopse:
Pessoas boazinhas são tão chatas. Não há nada melhor do que um bom vilão. Sei do que estou falando. Também tenho meus momentos de maldade, vocês me conhecem bem...
Por isso mesmo estou certa de que vão se divertir muito com este livro: Irmãs que amam sapatos e odeiam a meia-irmã - muito natural, é claro; uma madrasta hilária viciada num app para iPad e em experiências com venenos, huahuahua; uma bruxa que me lembrou muito dos tempos do colégio; e um lobo com crise de consciência... vai entender!
Então vamos parar de enrolação! Se estiverem na praia, peçam uma bebida bem geladinha e ajeitem seus óculos escuros, porque é impossível parar de ler as novas histórias desses vilões cheios de classe e... maldade!
Você sabe que me ama.
Xoxo, Blair Waldorf.



O livro que nos traz releituras dos clássicos contos de fadas, pela ótica dos vilões, tentou redimi-los perante o público, contando, digamos, o outro lado da história, em que os vilões, na verdade, foram vítimas de alguns dos tradicionais mocinhos. Mas a ideia funciona só até certo ponto.
Como o livro nos traz quatro contos escritos por autores diferentes, vamos falar de cada um individualmente.



#Stepsisters – Sobre Sapatos e Selfies, da autora de Gossip Girl, Cecily von Ziegesar, é protagonizado pelas meias-irmãs da Cinderela – Cindy, nesse caso –, Nastia e Dizzy – Anastásia e Drizella no original. Achei curioso que ela tenha escolhido falar das irmãs, já que a grande vilã da história da gata borralheira é sua madrasta malvada, mas ok. Todos conhecemos a mania de Cecily com as adolescentes do Uper East Side.
Nastia e Dizzy são duas patricinhas mimadas e irritantes, que obrigam sua meia-irmã pobretona a fazer todo o trabalho sujo: seu dever de casa, suas provas e trabalhos de escola, passar a noite na fila das liquidações de lojas famosas, para que elas não percam os acessórios em que estão interessadas... E exatamente como no conto original, a mocinha nos é apresentada como uma vítima conformada do mau caráter e do bullying das duas patricinhas. E assim como a princesa do conto, Cindy também conquista a simpatia de uma fada madrinha: o vendedor da Christian Louboutin, cujo estoque ela ajudou a arrumar antes do início da liquidação, e de quem acabou ganhando não um, mas dois pares de sapatos grátis – exatamente os desejados por suas irmãs, e sem temer que elas os furtem, pois seus pés gigantescos nunca caberiam nos sapatos minúsculos de Cindy.
Com a ajuda do vendedor, Cindy vai ao baile da Elite Adolescente de Nova York, onde dança com um príncipe... Blá-blá-blá... Aquela história enfadonha que todos conhecemos. Só que aqui há uma pequena diferença: se por um lado, as meias-irmãs patricinhas são um pé no saco, Cindy, depois de experimentar o glamour por uma noite, não fica muito atrás. Até sua “fada madrinha” percebeu isso, e deu no pé assim que possível, deixando a moça sozinha para lidar com a confusão das meias-irmãs e as manchas de vômito em sua cobertura. Um horror!
Quem leu minha resenha sobre o primeiro volume da série de livros Gossip Girl – cuja série de TV não assisti e não sei se um dia assistirei –, conhece minha opinião sobre os adolescentes criados por Cecily von Ziegesar: um desfile de personagens intragáveis. Aqui não é diferente. Podem colocar a culpa na minha tão conhecida implicância com a Cinderela, mas a verdade é que Cecily nos proporcionou apenas mais uma versão idêntica a todas as versões desse conto que a Disney adora nos enfiar goela abaixo mais ou menos a cada cinco anos – A Nova Cinderela, com Hilary Duff e Chad Michael Murray; O Outro Conto da Nova Cinderela, com Selena Gomez e a verdadeira voz de Zac Efron no High School Musical Drew Shelley; A Nova Cinderela: Era Uma Vez Uma Canção, com Lucy Hale e Freddie Stroma; A Nova Cinderela: Se o Sapato Servir, com a nova princesa da emissora Sophia Carson, que precisa melhorar o repertório musical para fazer jus à linda voz e aos seus maravilhosos graves, e Thomas Law; e daqui três anos, provavelmente teremos outro. Só espero que não seja baseado nesse conto, porque, crendeuspai...
Cecily pode até ter acertado a mão com Serena – aleluia, irmãos! A única personagem tolerável naquele emaranhado de adolescentes malas em Gossip Girl. Bem, ela e seus amigos pobres, Dan e Vanessa... Mas nessa sua versão da Gata Borralheira, nem Cindy, nem o Príncipe-na-verdade-não-tão-encantado-assim, nem as irmãs patéticas que ela deveria ter tentado redimir, nem a fada madrinha fantasiada de pirata da moda (não perguntem!), apesar de que, se eu tiver que apontar um personagem, pelo menos razoavelmente tolerável, é ele!
É uma história fútil, sem texto nem contexto, que vai basicamente do nada a lugar nenhum. A boa notícia é que o conto é curtinho, então, não desanime. Siga em frente, porque o restante do livro é bem melhor do que esse besteirol da rainha da bobagem da Quinta Avenida.






Menina Veneno
Autora: Carina Rissi
Editora: Galera Record
Páginas: 192
Gênero: Conto de Fadas | Chick-lit
Sinopse:
Contada sob a perspectiva ferina e cheia de humor ácido de Malvina, a madrasta, essa história vai te surpreender. Da mesma autora da série best-seller Perdida. Você conhece a história de uma certa princesa que sofreu inúmeras tentativas de assassinato por sua madrasta, uma delas com uma maçã envenenada. O bem contra o mal, a indefesa donzela ameaçada pela perversa Rainha... É bonito, não é mesmo? Francamente, me embrulha o estômago só de falar dessa história da carochinha. Eu não sou uma bruxa, não sou má e eu nunca planejei matar ninguém. Por anos, fui a maior modelo do planeta, o nome mais poderoso do mundo da moda... Até o dia em que a insossa da minha enteada, Bianca, roubou a minha maior campanha. Dá pra acreditar? Bianca é tão sonsa... e tem esse arzinho azedo e avoado que me dá vontade de voar no pescoço dela... Eu sei, parece mesmo que eu fiz tudo o que a imprensa me acusa de ter feito. Mas não foi bem assim. Senta aqui e me ouça até o fim. Depois me diga se acha mesmo que mereço o título de Rainha Má... Talvez só Rainha seja muito melhor.



Menina Veneno, da minha atual autora favorita – carecia esse esclarecimento, gente? Falando sério...? – Carina Rissi, recria a história da Rainha Má. Neste caso, a mais bela de todas – literalmente! Tem até um aplicativo disposto a confirmar isso – é uma top model internacional, badaladíssima, apontada por jornais e revistas como a Rainha das Passarelas. Mas sua vida nem sempre foi um conto de fadas. Malvina Neves cresceu num orfanato, venceu por conta própria, com uma pequena ajuda de Henrique, o homem com quem se casou – mas só depois de já estar rica e famosa –, e que, ao morrer num acidente, deixou de herança a inconveniente tutela de sua filha adolescente, Bianca Neves. A moça tenta seguir os passos da madrasta nas passarelas, e está prestes a tomar seu lugar na campanha de um perfume que fez a fama e a fortuna de Malvina, quando, depois que uma pequena tramoia da madrasta dá muito errado, a moça é dada como morta.
Você deve estar pensando: natural, a Rainha Má deu um fim na Branca de Neve; todo mundo sabia que isso iria acontecer. Só que, nesse caso, não era bem isso que Malvina queria. Não que a morte da enteada fosse exatamente inconveniente...
Acontece que a história ainda não tinha acabado, afinal, a mocinha ainda não tinha mordido uma maçã envenenada vermelha como sangue. E não será bem veneno o que quase colocará fim à vida da menina ao provar a suculenta torta de maçã. E, na verdade, de novo, a coisa não foi exatamente culpa da Malvina.
E então Bianca contará uma versão um pouco diferente dos fatos que nos foram apresentados por sua madrasta desde o início do conto: colocando-se, como já era de se imaginar, como vítima da história, depois que Malvina já tinha nos explicado, a seu modo, que a moça não era exatamente uma santa, e que inadvertidamente tinha se intrometido no flerte da madrasta com um boy magia qualquer... Bem, mas essa não é a questão importante. O caso é que Bianca gostava de seguir a madrasta como uma sombra, e agora está virando a mesa contra ela. Sabe aquele confronto básico entre duas colegas de classe, em que cada uma conta uma versão diferente da mesma história para a professora, cada uma se colocando na posição de vítima e tentando convencer a plateia de que a outra é a vilã? É mais ou menos o que acontece. Ouvimos duas versões da mesma história – a de Bianca muito mais coesa que a de sua madrasta, que narrou a história inteira, e que não negou em momento nenhum que estava cheia de culpa no cartório, embora quase ter matado a enteada duas vezes não tenha sido intencional –, e no final fica difícil tomar partido de qualquer uma das duas. Dá um pouquinho de dor no coração ver como a Malvina é colocada na posição de vilã, um pouquinho de raiva de ver Bianca sendo a “mocinha” da história, e uma vontade maior ainda de estapear as duas para pararem de frescura.
Curiosamente, apesar de ter sido escrito pela minha confessa autora favorita, esse não foi o meu conto favorito do livro. E mesmo tendo lido as duas versões – a do Livro dos Vilões, e a da publicação individual estendida – Menina Veneno não chega aos pés dos maravilhosos romances da autora. Malvina está muito longe de ser engraçada e carismática como as protagonistas de Carina Rissi costumam ser – achei ela um pouco descompensada, confusa, e até um tanto imatura, sem falar que alguns de seus planos devem ter vindo da escola de bruxas de Descendentes, da Disney –, apesar de eu ter simpatizado bastante com ela, e até torcido para ela se dar bem no final – principalmente porque a Rainha Má é, sempre foi e sempre será, minha vilã favorita dos contos de fadas; uma confissão que me deixa um pouco preocupada, e que certamente deveria me encaminhar para terapia. Malvina não é propriamente má, mas faz escolhas bastante duvidosas, e está frequentemente colhendo os frutos de seus planos mal elaborados.
Enfim, esse não foi o maior acerto da autora, mas não é ruim, não. Estruturalmente, é o conto que mais se aproxima do original, e ainda tem aquele toque especial de ironia e personagens cativantes – leia-se: motorista gente boa da Malvina – que Carina Rissi sabe fazer tão bem.




Falando em contos que nunca estiveram nas minhas boas graças – tal qual Cinderela –, Quanto Mais Afiado o Espinho, da Diana Peterfreund, recria o passado adolescente de Malévola – Malena, nessa versão –, a vilã de A Bela Adormecida, que não tem o rosto distorcido pela maquiagem acinzentada de Angelina Jolie, nunca foi uma fada boa, e nem chegaria algum dia a ser glamorosa.
Nessa versão, Malena vivia escondida em sua casa com a mãe, porque as pessoas da  cidade costumavam hostilizá-las por serem bruxas. Só que isso, na verdade, não tinha muito a ver com magia, e mais com o cultivo e conhecimento de plantas e ervas para fins diversos.
Acontece que Malena está crescendo, e tem vontade de sair da toca, conhecer pessoas, tentar fazer amigos, e curtir um pouco a vida. Então ela convence a mãe a deixá-la frequentar a escola, em vez de simplesmente aprender em casa, como fez até então.
E é nessa liberdade condicional que Malena conhece Flo, Fawn e Marie – lembra das fadinhas boas? –, três adolescentes que costumam frequentar a piscina comunitária do bairro, e que se tornam suas melhores amigas... Até descobrirem quem ela é, e iniciarem pessoalmente todos os boatos que passaram a assombrar a bruxinha nos corredores da escola. Depois de um incidente bizarro envolvendo a nova amiga do trio, Rory, a garota nova na cidade que mora numa das mansões recém-construídas num bairro nobre, e que, não por acaso, está namorando o mesmo cara que tinha iniciado um romance com a bruxa – e que aqui não é Phillip, mas Pierce –, Malena decide dar um basta no bullying que anda sofrendo, e se vingar das garotas.
Ela utiliza seu conhecimento das diversas propriedades de cada planta para preparar um sonífero, e colocar nas bebidas das quatro garotas durante a festa de aniversário de Rory – afinal, botar garotas para dormir será a especialidade dessa bruxa um dia –, mas seu plano acaba dando ridiculamente errado. Ou quase.
Apesar de abordar temas bem atuais, como bullying e drogas, eu sinceramente não sei de qual conto gostei menos, esse ou o das irmãs da Cinderela, mas os motivos são bem distintos. Se no de Cecily von Ziegesar o que me incomodou foi a futilidade dos personagens, as armações absurdas, e a ausência de contexto, nesse, foi o clichê, e a ingenuidade de uma das vilãs mais icônicas de todos os tempos. A Disney já tinha feito isso, mas pelo menos se deu o trabalho de lhe dar o rosto da divina ex Sra. Pitt para amenizar a tragédia. Diana Peterfreund simplesmente enterrou o espinho bem fundo na dignidade da bruxa, e nos colocou para dormir...




A grande surpresa nesse Livro dos Vilões foi guardada para o final. Eu tinha as maiores expectativas concentradas na minha diva literária nacional favorita, mas aconteceu que o melhor conto do livro foi escrito por outro compatriota de quem eu nunca havia lido coisa alguma.
Fábio Yabu – prazer, querido; só te conhecia de nome, mas agora quero conhecer suas obras – contribuiu para o livro com o vilão mais improvável: o Lobo Mau. Improvável porque é difícil pensar numa maneira de redimir – ou até mesmo condenar – alguém que é motivado unicamente pela fome – desconsiderando, é claro, aquela pequena dose de malandragem que o levou a vestir as roupas da Vovó que lhe serviu de jantar, para enganar a menina que estava passeando no bosque e que ele queria de sobremesa. O Lobo Mau apenas estava numa posição mais alta na cadeia alimentar do que Chapeuzinho Vermelho e os Três Porquinhos. Simples assim. Era difícil pensar numa releitura do conto que não caísse no clichê de transformá-lo em lobisomem.
Então Fábio Yabu fez o impensável. E sacou da manga um conto tão brilhante por sua singeleza, que conseguiu a proeza de ofuscar a Carina Rissi!

A história é bem simples: enquanto nós lemos e relemos, contamos e recontamos os contos de fadas, lá no Reino Encantado, todos os nossos personagens tão queridos estão presos ao roteiro. As histórias se repetem, e se repetem, infinitamente, cada vez que alguém lê ou conta cada uma delas no nosso mundo. E no pequeno intervalo em que ninguém as está narrando, o Lobo Mau reconstitui suas feridas, retira as pedras que o Caçador costurou em sua barriga, recoloca seus órgãos internos e ossos de volta em seus lugares, e se recupera para mais uma facada na barriga e mais uma morte dolorosa mais tarde, quando outra pessoa estiver contando a história mais uma vez. Ninguém se atreve a questionar esse destino repetitivo, por medo Dele. O temido, onipresente, onisciente, onipotente. Ele que controla tudo naquele Reino: o Narrador.
Ele é uma espécie de divindade daquele mundo, cujo poder e autoridade ninguém tem coragem de desafiar. Só aconteceu uma vez. Um conto de fadas há muito esquecido fez o que nenhum deles tem coragem de fazer, e foi severamente punido: banido para sempre para o Esquecimento. O Inominável, como ficou conhecido esse personagem transgressor, e seu destino horrendo foi o que manteve todos os personagens calados e comportados por tantos séculos. Mas agora o Oitavo Anão decidiu aproveitar a revolta e o desgosto do Lobo Mau, por ter que viver seu destino tétrico incansavelmente, para convencê-lo a aproveitar uma brecha, o ponto cego do Narrador, que acontece de tempos em tempos, e utilizar o último portal para escapar do Reino Encantado.
Com a fuga do Lobo, o Narrador fica enlouquecido, a ponto de querer destruir o Reino todo para trazê-lo de volta à história.

O conto é narrado em dois espaços diferentes. Enquanto o Reino Encantado está à beira do caos, prestes a experimentar a ira de sua divindade, no mundo real, uma menininha de cinco anos acorda certa noite com um lobo embaixo de sua cama. Acontece que o Lobo Mau não é tão mau assim, e constrói um lindo laço de amizade com a menina, que termina de maneira trágica. O Lobo se torna o herói da história no nosso mundo, a história ganha proporções imensas, vira livro, a Disney faz um filme, e o lindo conto de amizade entre A Menina e o Lobo se torna o mais querido conto de fadas moderno. Seria perfeito, se o Lobo Mau não tivesse sido mandado de volta para o Reino dos Contos de Fadas, para travar uma batalha final contra o Narrador, que diante da nova popularidade conquistada pelo Lobo, já não parece mais tão poderoso assim.
O conto nos traz uma inteligente lição sobre enfrentar nossos medos, e sobre ter coragem de buscar mudanças. Às vezes, o monstro que nos assombra (apavora) não é tão perigoso assim; é o medo que nos convence de que ele é, como ficou provado com a revelação da identidade do Narrador – em que o autor fugiu de todos os clichês que já tinham me passado pela cabeça. O personagem não é particularmente significativo, mas foi surpreendente. E serviu como uma luva para demonstrar o ridículo da situação, e a coisa absurda que estava provocando tanto medo nos personagens.
A Menina e o Lobo é de longe o melhor conto do livro, e foram os autores brasileiros que basicamente fizeram O Livro dos Vilões valer a pena.
Afinal, o fato de toda história ter dois lados, não significa que algum deles seja bom...



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