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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Desafio #9: Vida Louca Vida – Infelizmente – Vida Breve



O desafio de setembro tinha o nome dele gravado desde que vi a convocação. Guardei o livro com o maior carinho, dei várias espiadinhas ao longo do ano, li trechos, mas soube esperar. O tema música não podia ser, para mim, sobre outro artista, senão Agenor de Miranda Araújo Neto, ou mais propriamente, Cazuza.



O livro Cazuza – Só As Mães São Felizes é um relato concedido por sua mãe, Lucinha Araújo, à jornalista Regina Echeverria, sete anos após a morte deste, que foi um dos maiores poetas da música brasileira. Um dos maiores, porque não se pode menosprezar o trabalho de outros compositores; porém, seu estilo de poesia, seus versos, e a maneira como ele reescreveu a história do rock brasileiro, o tornaram um artista único.

Lucinha começa o livro contando os últimos momentos da vida de seu filho – seu único filho, com quem ela teve que aprender a ser mãe, e a quem dedicou todo amor e admiração. Então ela faz uma volta no tempo, para biografar a trajetória de seu filho desde o princípio, começando pelos fatos mais elementares que resultaram em seu nascimento.

A história de Cazuza, como ele próprio disse em entrevista, certa vez, e sua mãe reforçou neste livro, começou em Vassouras, interior do Rio de Janeiro, onde nasceu seu pai, João Araújo, “que se casou com uma moça linda, Lucinha, que cantava como passarinho”.

Agenor, conforme ela conta, foi Cazuza desde o ventre. Ela havia prometido à sua sogra que daria o nome do pai de João ao seu filho, pois nessa época ela ainda não imaginava que não teria outros filhos. Mas ainda na gravidez, o casal começou a chamar seu menino de Cazuza, um nome que no nordeste significa moleque. O próprio garoto só foi se dar conta de que seu nome era Agenor quando foi para a escola.

E realmente, não dá para imaginar um nome melhor para este artista.




Um dos pontos mais extraordinários deste livro, é que, embora tenha sido narrado do ponto de vista de uma mãe orgulhosa por ter gerado um filho tão especial, ela não fez omissões sobre nenhum aspecto da vida de Cazuza. Ela conta passagens preocupantes de sua infância e adolescência: o início do envolvimento com as drogas, o medo de que o filho sofresse preconceito por ser bissexual, e as dificuldades em encontrar seu caminho, antes de descobrir que a vocação de Cazuza era a música.

E embora a maior parte do livro seja sobre seu calvário – a descoberta da AIDS, o tratamento brutal, e sua morte precoce –, o poeta está em toda parte: em suas declarações à imprensa, nos diálogos citados por seus familiares e amigos, e na própria postura como Cazuza escolheu enfrentar a doença, com toda coragem e dignidade, agarrando-se ao trabalho como uma maneira de se prender à vida.

A escolha de assumir publicamente a doença – numa época de grande preconceito, principalmente porque ainda não se sabia muito sobre AIDS, e o medo de contaminação era alimentado pela ignorância –, prova a coragem e o caráter de Cazuza. Eu tinha lido, alguns anos atrás, numa matéria publicada em sua homenagem num jornal – não me lembro qual –, algo que Cazuza disse a este respeito, e que me fez admirá-lo ainda mais – a pessoa, além do artista: “quem canta uma música que diz ‘Brasil, mostra a tua cara!’ não pode esconder a sua”. Encontrei esta citação também no livro, em meio a muitas outras, que retratam sua coragem e sua força frente à tão grande adversidade.

Mas, para além de uma biografia sobre um artista – e acima de tudo, um ser humano – extraordinário, que escolheu viver intensamente sua curta vida, sem medos e sem freios – exagerado, como ele próprio se descreveu –, que descobriu da maneira mais dura que “a vida é bem mais perigosa que a morte”, e que nunca desistiu de lutar, e nunca perdeu o otimismo, este livro é sobre uma mãe: que teve que assistir ao sofrimento de seu único filho; que empregou todas as suas forças e recursos para mantê-lo vivo pelo maior tempo possível; que com coragem igual, dedicou, e ainda dedica sua vida na luta contra essa doença cruel que arrancou seu filho do mundo – através da Sociedade Viva Cazuza, que ajuda crianças portadoras do vírus HIV.

Lucinha Araújo, eu acredito, rasgou o coração para contar ao mundo a linda trajetória de seu filho tão especial, que foi idolatrado e amado por muitos, mas naturalmente, por ninguém mais do que ela. Um relato comovente e admirável. Mas como ela própria definiu ao terminá-lo: “nem todas as mães são felizes”.



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