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sábado, 3 de maio de 2014

Desafio #4: O Crime da Moda


Ligeiramente atrasada, eis o resultado do desafio literário do mês de abril, “o Hype do momento”: o que está todo mundo lendo.


Quando vi esse tópico não tive dúvida sobre qual seria o livro perfeito: “A Culpa é das Estrelas”, de John Green. Na verdade, esse livro até poderia ter sido meu “Na Estante”, porque eu já vinha adiando essa leitura há séculos. Mas então imaginei a chuva de resenhas deste livro que poderiam surgir nos blogs este mês, por causa do mesmo desafio (deste e de outros títulos do autor, que recentemente se tornou o favorito absoluto dos leitores, no topo das listas dos mais vendidos com pelo menos cinco títulos!), e decidi procurar outro “Hype” para este desafio.


Passei quase duas horas verificando as listas de mais vendidos e de mais populares para decidir entre um catálogo relativamente grande de títulos em evidência (não vamos nos esquecer de que Nicholas Sparks, assim como Green, também emplaca um novo sucesso com frequência inacreditável; quase como os astros da música com seus novos singles!).


Então, finalmente, depois de algumas observações, acabei decidindo por uma opção que em todos os aspectos era a mais atraente.


Talvez o momento “Hype” deste livro até já tenha passado, exceto entre os Potterheads, e convenhamos que os Potterheads formam uma comunidade muito grande no Brasil!


Por conta da polêmica a respeito da descoberta de que Robert Galbraith é pseudônimo de J. K. Rowling, “O Chamado do Cuco” ganhou grande notoriedade, e principalmente, popularidade, embora já fosse um sucesso de vendas na Grã-Bretanha antes mesmo de a fofoca vazar.


Depois de ler o livro eu compreendi o possível motivo de J. K. Rowling ter hesitado tanto em admitir a autoria do livro. “O Chamado do Cuco”, em praticamente toda a narrativa, soa extremamente diferente de Harry Potter, o que, em minha opinião, comprova irrevogavelmente o talento e a maestria extraordinários da autora. Ela não só criou uma história que nada tinha a ver com o mundo fantástico em que esteve pisando por quase vinte anos, como também criou um autor e deu vida a ele nas páginas: em sua maneira de narrar, de descrever os diálogos, de contar sua história, conferindo a ele nuances tão reais e tão masculinas que poderiam tê-lo tornado crível por décadas, se a informação não tivesse vazado.


Esta obra se distancia largamente da literatura leve e incensurável de Harry Potter. Sobretudo na escolha da linguagem. Os diálogos dos personagens, e por vezes até a narrativa, são pautados por termos e expressões que moralmente não são recomendadas para crianças (o, teoricamente, principal público de Harry Potter). Portanto é compreensível a preocupação da autora em se preservar detrás do pseudônimo de Robert Galbraith. Ela deve ter imaginado que isto inibiria a procura voraz pela obra meramente pelo conhecimento de ter sido escrito por ela, e o possível choque de algum leitor ao contrastar este novo estilo literário com suas obras anteriores. Não que algo nesta obra tenha me chocado... A verdade é que eu absolutamente adorei cada linha do texto, e em alguns momentos até esqueci (ou simplesmente deixei de lado) quem era a verdadeira autora do livro. Seu talento e sua obra falam por si.


Aliás, esta foi uma escolha audaciosa: lançar-se como autor desconhecido é praticamente como um recomeço de carreira, um tiro no escuro, sobretudo no competitivo (e infelizmente pouco valorizado; se morasse no Brasil ela provavelmente ficaria muito menos motivada a arriscar) mercado literário; ter de reconquistar todo o espaço que ela já tinha alcançado com a saga do bruxinho, mas desta vez, para um autor sem rosto. Imagino que isso seria um desafio... Se ela não fosse indubitavelmente uma autora – vou tomar emprestado o muito merecido bordão da saga – BRILHANTE!


Para não dar muitos spoilers – afinal, é um livro de suspense policial – e não estragar as surpresas de ninguém, vou resumir apenas o pano de fundo, o “sobre o quê” é a história.


O livro gira em torno do aparente suicídio de uma famosa modelo britânica, Lula Landry (apelidada por um amigo como Cuco, informação que só é revelada quase na metade do livro, e que finalmente justifica o título), cercado de controvérsias que a polícia decidiu ignorar ao encerrar o caso. Nenhum dos amigos ou familiares de Lula disseram conhecer um motivo que a levaria ao suicídio, embora ela sofresse de transtorno bipolar.


A princípio, foi considerada a hipótese de que o responsável por sua morte fosse o namorado viciado, o ator Evan Duffield, porém, o álibi dele havia sido comprovado durante a investigação.


O único que não parecia convencido disso, ou de qualquer outra circunstância em torno da morte da modelo, era seu irmão adotivo, John Bristow, pois a polícia não havia conseguido identificar um homem flagrado pelas câmeras de segurança espalhadas pelas ruas de Londres fugindo correndo do bairro onde Lula morreu.


Isto levou Bristow a contratar os serviços do detetive particular Cormoran Strike para reinvestigar o caso.


E neste momento eu tiro o chapéu mais uma vez à J. K. Rowling, por não criar uma réplica de seu conterrâneo Sherlock Holmes: um detetive astuto, arrogante, e incapaz de não replicar ou evidenciar as mentiras e revelações comprometedoras dos envolvidos no caso ao longo da investigação.


A verdade é que Cormoran Strike é tudo o que eu jamais esperaria de um detetive. Em lugar de um charmoso morador da Baker Street, Rowling (ou melhor, Galbraith) talhou um detetive de uma perna só, desventuradamente sem-teto, cujos problemas pessoais o forçaram a morar em seu escritório, endividado até as orelhas, e com uma nova secretária temporária que, embora pareça ter caído do céu com uma astúcia providencial para ajudá-lo na investigação, ele sabe que perderá em breve, pois não tem condições de pagar seu salário. Aliás, Robin Ellacott (que na minha cabeça assumiu uma imagem loira da Dafne do Scooby-Doo) parece ter sido a única a realmente acreditar no potencial de Strike como detetive desde o começo. E ao longo da história se mostrou quase tão boa investigadora quanto ele.


Eu não dava um tostão furado pelo Strike no começo do livro. Como detetive, achei-o imprestável: fazendo interrogatórios medíocres, pouco elaborados, com perguntas toscas que pareciam ir do nada a lugar nenhum. Demorei um tempo para me dar conta de que ele deixava as pessoas tagarelarem de propósito; dava corda para que falassem à vontade sobre o que quisessem contar, enquanto mentalmente ia montando um intrincado quebra-cabeça, composto, basicamente, de informações, à primeira vista, inúteis que as testemunhas tagarelavam. Aparentemente as fofocas e a língua ferina dos amigos de celebridades revelam muito mais do que as evidências de uma perícia forense. Sobretudo, quando o assassino é meticuloso o suficiente (e tem uma sorte do caramba também!) para não deixar nada pelo caminho.


A única testemunha da morte da modelo era sua vizinha do primeiro andar, Tansy Bestigui, que disse ter ouvido Lula discutindo com um homem momentos antes de cair da sacada, dois andares acima. Mas o depoimento de Tansy foi desconsiderado e desmentido pela polícia, que comprovou que ela não poderia ter ouvido nada de dentro de seu apartamento, com as janelas à prova de som fechadas. E como foi encontrada meia carreira de cocaína no banheiro dos Bestigui, eles presumiram que ela poderia ter sido vítima de uma alucinação auditiva por causa da droga. Ou simplesmente, inventado a história toda.


Strike duvidou disso no momento em que interrogou Tansy. Ele concluiu que ela dizia a verdade sobre ter ouvido a discussão e sobre ter visto a queda da modelo. A questão era que, por alguma razão, Tansy mentia sobre onde estava e o que estava fazendo quando testemunhou estas coisas.


Ele interrogou todo mundo, e já tinha praticamente todo o quebra-cabeça montado (sem deixar vazar nenhum spoiler para o leitor, malvado), quando finalmente se cansou das evasivas de sua testemunha mais relutante e primordial: o produtor de cinema Freddie Bestigui, marido de Tansy. Foi neste momento, quando ele enxovalhou o produtor com suas descobertas sobre o motivo de Tansy ter contado seu testemunho emoldurado em mentiras, para intimidar Bestigui a colaborar com a investigação, que eu finalmente dei crédito ao detetive. Eu tinha imaginado inúmeras possibilidades para ela ter mentido (inclusive que o produtor, que eu julguei um pervertido desde o começo, tivesse enviado sua mulher seminua para dar as “boas-vindas” ao rapper Deeby Macc no apartamento abaixo do de Lula – isso, na pior das hipóteses, porque não tinha ficado clara para mim a relevância de mencionar que Tansy descera à portaria seminua, gritando histericamente depois de ter testemunhado a queda da modelo). A conclusão verdadeira (que não vou contar) foi a única solução que não tinha me passado pela cabeça, e deu até uma peninha da Tansy. Ela, afinal, não era uma boneca de plástico, vaca, golpista, chupim de marido rico, e oportunista, querendo ficar famosa à custa da tragédia da modelo, como eu havia pensado. Bem, ao menos ela não era a última coisa.


Confesso: não fiquei nem um pouco surpresa com a revelação do assassino. A hipótese já tinha me ocorrido algumas vezes, embora eu ainda tivesse outro suspeito igualmente forte. Tinha adivinhado o motivo, o beneficiário do testamento, e tal... Meu cérebro é meio diabólico em me adiantar spoilers claros antes de chegar ao final do livro. Eu apenas, frustrantemente, não tinha conseguido compreender, embora depois tenha se mostrado óbvio também, o motivo das ações iniciais do culpado.


Em minhas considerações finais, devo dizer que o livro é realmente muito bom; não apenas num nível J. K. Rowling, porque isso, como já disse, é um fato que pode ser facilmente desconectado durante a leitura, mas porque é uma história densa, instigante, que faz o leitor querer chegar ao fundo do mistério, e mergulhar de cabeça nos bastidores escandalosos da fama.


Como o próprio Cormoran Strike pôde concluir sobre si mesmo, ao colher os louros de seu trabalho nesta investigação, Robert Galbraith, já em sua estreia na literatura de mistério policial, independentemente de sua verdadeira identidade, “tornou-se um nome”!

 



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